Vivemos em novos tempos

Por: Felipe Sandrin | 12/07/2018 06:00:02

A cada nova barbárie contra um animal podemos perceber o quanto o ser humano é descrente da própria espécie. A violência gratuita não é prioridade dos novos tempos, mas a familiarização dessas absurdas violências, que passaram a rodar nas mãos de qualquer pessoa conectada à internet.

Um cão é morto a pauladas, filhotes de gatos são enterrados vivos, cavalos morrem pela exaustão e abandono. Ora, se sempre foi assim por que hoje a sensação de injustiça e ódio pelos agressores cresceu tanto?

Sistematicamente o homem perde a fé no homem. Em tempos em que podemos mais, quando a tecnologia torna a vida tão mais fácil, a violência parece tão descabida. Quando humanos matam humanos a sensação de impotência parece reverberar com tão menos intensidade do que quando humanos atacam animais, por quê? 

Em um jantar uma garota comenta: “Absurdo fazer isso com um animal. Só mostra o quanto não temos amor pela vida”. A mesma garota comenta sobre o aborto: “É claro que sou a favor. A mulher tem direto sobre o corpo dela”. Onde ocorre o desacoplamento da vida? Em que momento as pessoas passaram a achar normal o desmembramento de um feto da barriga da mãe, enquanto consideram um crime contra a vida a morte de um animal?

Por tantas vezes observei meus cães, a serenidade no olhar e o amor incondicional que me dedicavam. Essa conexão entre humanos e animais parece tão mais sincera do que a paciência que precisamos exercitar para suportar outras pessoas.

Alguém disse certa vez que cães eram um investimento mais seguro do que filhos, porque vivem menos, custam menos e amam mais. De fato, parecem mesmo, ainda mais na época que enfrentamos.

Há um reino de confusão a perambular nossas mentes. Questões simples tomaram o corpo das questões complexas. O amanhã surge no horizonte tão perigoso quanto grandioso. Percebemos que a tecnologia não nos salvará de nós mesmos, que as conexões e velocidade não significam que nos uniremos em espécime, que o passo dado para frente não garante que logo ali não haja um abismo.

Nós nos torturamos em confronto com quem deveria ser nosso semelhante e não cogitamos nossa semelhança com quem é capaz de cometer atrocidades. Mas será esse repúdio um real produto da diferença ou uma constante atormentadora nota de nossa similaridade?

Em tempos assim, a ignorância é a bênção dos discursistas de apartamento. A razão técnica surge como argumento a justificar atos horrendos. Condenamos os chineses que comem cães, mas achamos inconcebível pessoas morrerem de fome. Defendemos o direito à vida de assassinos e achamos direito crianças serem mortas no ventre das mães.

Não é a evidente perda de humanidade que nos encara à porta, mas a constante sensação de que esse é terror é por fim o brinde inevitável com o eu que em todos habita.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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