Quem sabe no ano que vem

Por: Felipe Sandrin | 14/12/2018 06:00:46

Lá pelas tantas já era hora de acordar, já era meio-dia, já era hora de sair do trabalho. Lá pelas tantas já era Carnaval, aniversário, Natal e fogos comemorando a virada o ano. Lá pelas tantas era um beijo tímido, a primeira transa, filhos e férias de quinze dias para ver o mar. Lá pelas tantas as rugas se evidenciaram, a barriga ficou difícil de perder e os cabelos, frágeis como eram, pareciam ter seus próprios planos para o futuro.

É assim que os anos passam até se tornarem décadas, até as lembranças nublarem os rostos e a memória se tornar um esforço. É assim com todos, mas, ocupados que somos, achamos que não será com a gente. Estamos tão constantemente em nossa presença: nós nos cumprimentamos no espelho e, nesse breve olhar, não percebemos cada linha que se intensifica.

E nossos romances sucumbem ao tempo, nossos momentos mais incríveis, nossos melhores frios na barriga. Assim, imperceptivelmente, os anos devoram nossas melhores emoções de nossos melhores momentos, como se fosse um viajante no tempo voltando para cobrar as dívidas prometidas – e esquecidas – por nós mesmos.

Aquele medo do primeiro dia de trabalho, aquele primeiro frio na barriga ao encarar o público, o nosso primeiro encontro. Momentos que se perdem nos corredores da nossa existência: você desembarcando e prestes a se encaixar no melhor abraço que você jamais voltou a sentir.

E não adianta tentarmos reviver tudo isso durante uma noite em que o sono não chega, pois, por maior que seja nossa insônia, ela nunca é suficiente para tantas lembranças e tantas contagens regressivas a sustentarem um novo ano.

Há um velho barbudo e sua roupa vermelha na TV, ursos polares tomando refrigerante, há canções de amor tão antigas quanto os nossos pais. Em breve os fogos vão subir, muitos vão lembrar-se de alguém que não está aí, outros vão se abraçar na esperança de dias melhores. Um ciclo que se fecha, uma nova gaveta de lembranças bagunçadas que guarda memórias que nós, infelizmente, esqueceremos de exaltar.

Alguém me disse certa vez que o sonho mais bonito que se pode sonhar é aquele que sonhamos acordados. Olhar para o lado e ver quem nós muito admiramos, andar pela casa na sensação de que construir algo é a forma mais íntima de agradecer à vida pela chance de se estar aqui.

Olhar para trás e poder agradecer, de tal forma que não importem os atravancos, pois o que importa mesmo é que estávamos lá, testemunhamos uma vida nossa, partilhada com outros e fomos tão testemunhas deles quanto eles próprios são de nós.

Viver não é fácil, porque de fato quase ninguém conhece alguém que sabe como se deve viver. E se para todos nós os anos passam, nos cabe, então, essa partilha mortal, extinguível e frágil. É o ciclo de todos nós, o mesmo labirinto ao qual todos pertencemos.

E assim os anos batem à nossa porta. Dá para fingir que não estamos em casa ou podemos simplesmente deixá-los entrar.

Dá medo dessa vida, mas acho que todo esse medo é, na verdade, o medo de não estar se vivendo. Talvez ainda dê tempo, quem sabe no ano que vem.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 711
24/05/2019 07:00:23
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA