2018: a onda gaúcha que se afastou do Rio Grande

Por: Felipe Sandrin | 01/11/2019 06:00:27

Definitivamente 2018 foi o ano da migração gaúcha. É impressionante o número de pessoas que se mandaram do nosso querido Rio Grande do Sul: empresários em busca de lugares onde sejam mais valorizados e empregados buscando melhores condições de vida.

A onda de violência já não apavora tanto. E quando chegamos a esse nível isso se torna quase uma desistência. Para 2019, o Estado já começa quebrado, servidores públicos vão comer o pão que o diabo e que eles próprios amassaram. Não há grana para a saúde e muito menos para a melhora das corporações policiais. A negativa dos números estarrece o mais positivo dos bairristas. Definitivamente, fomos apresentados ao fundo do poço.

Sinceramente desconheço povo que ame tanto o trabalho como o nosso. É impressionante o que os gaúchos conseguem fazer em outros Estados. Na nossa querida Bento Gonçalves, o exemplo já se faz em nossa topografia: quem em sã consciência ergueria uma cidade em meio a tantos morros? Pois é, nossos antepassados assim o fizeram. Nosso valor pelo trabalho junto ao sol que nasce e que se põe está em nossa origem cultural.

Mas só trabalho não basta. Aliás, quantas famílias se desmontam porque seus pilares se focam demais nos afazeres e esquecem de suas casas? O Rio Grande do Sul é uma casa esquecida por seus proprietários tão dedicados ao trabalho. Talvez nosso engano tenha sido acreditarmos que teríamos os representantes que merecíamos. Talvez nosso bairrismo e amor tenha nos cegado e feito acreditar que uma boa terra se arruma sozinha.

Tínhamos tudo para ser um exemplo ao Brasil, mas o que hoje somos? Nossa arrogância em nos proclamarmos o povo mais politizado permitiu o esfacelamento de nossas universidades, universidades essas onde hoje se formam os antros de uma esquerda elitista que se fantasia de socialista.

Sucateamos nosso discernimento na frase “todo lugar está ruim”. Alimentamos a crença de que não poderíamos fugir das garras afiadas de uma má administração nacional. Enquanto isso, nossos vizinhos catarinenses decolaram. 

A indústria de Santa Catarina, a tecnologia, os investimentos em educação e os incríveis números contra a violência chegam a ser humilhantes. Talvez tudo isso possa ser resumido de forma prática na situação das estradas, pois basta cruzarmos a divisa entre os dois Estados para constatarmos que estamos saindo de um buraco. É assustadoramente impressionante a diferença de estrutura e administração entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Mas claro, para o gaúcho tradicional nada de dar o braço a torcer, segue o Rio Grande sendo incomparável. 
E a galhada – ao que tudo indica – em 2019 será ainda maior. Sim, galhada, chifrada, guampada, acho que dá para fazer essa comparação. Nós nos tornamos o marido traído que prefere não admitir a traição apenas para parecer “menos corno”.

Está na hora de parar de defender o indefensável. Está na hora de assumir que morar no Rio Grande do Sul não é mais como era. Está na hora de parar com essa ideia de que bombacha e cuia salvam da desgraça. Ou botamos ordem na administração e acabamos com essa soberba de sermos melhores ou a última pá de terra vem nesse ano. Os melhores estão se mandando. Pergunto: vai sobrar quem?


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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