E se fosse o dilúvio, valeria a pena se salvar?

Por: Felipe Sandrin | 16/10/2015 00:00:00

Pela janela do ônibus, vejo um grande muro, imponente, mas sem grande beleza. Suas pichações e tinta com aspecto envelhecido contrastam com o resto da cidade. Era uma das minhas primeiras vezes em Porto Alegre. Questionei o senhor que sentava ao meu lado sobre a serventia daquela atípica obra: “É o Muro da Mauá. Hoje, não serve para nada”, respondeu.

Saciado parcialmente da curiosidade, me vali daquela afirmação como criança que confia demasiadamente em adultos que, no fundo, sustentam argumentos também infantis. Aquele muro, afinal, separava o Lago Guaíba (ou, chamem de rio) do centro de Porto Alegre. Com o assunto das chuvas e cheias nas principais pautas, me questiono sobre aquele senhor e sua destruidora ignorância. Certamente, ele não sabia que, em 1941, a grande enchente deixou um quarto da população da capital desabrigada.

Assim surgiu o Muro da Mauá, após um dos capítulos mais trágicos do Rio Grande do Sul. Ao longo de 30 anos, o imponente muro de três metros de altura e 2,6 mil metros de extensão ergueu-se de forma silenciosa e esquecida. Hoje, 38 anos após a última grande cheia, o “inútil” muro presta seu serviço à população. Mais do que separar Porto Alegre das águas, essa obra nos lembra que quem não conhece a história está fadado ao lento definhamento.

A natureza é silenciosa, mas se repete. Independente de nós, ela tem sua vida própria, acontece. Para nós, cinquenta, cem anos parecem tanto. Porém, para ela, o tempo nada significa.

O homem garantiu sua sobrevivência no momento em que entendeu a importância de retransmitir o que aprendeu. Afinal, como poderíamos não precisar reiniciar tudo a cada nova geração? Os desenhos, a fala e as escrituras. O ser humano repassando tudo o que aprendeu. Mas, neste mundo prático, retransmitir parece algo a se tornar banal: não é!

Essa memória contraproducente que o brasileiro alimenta é o que tem nos fadado a escolhermos líderes cada vez piores, a seguirmos ideias cada vez mais medíocres e nos apoiarmos sobre mentalidades infantis. Imaginemos que, naquele dia, no meu lugar, estivesse outra criança, um futuro empreendedor, alguém do ramo de construção, talvez. Imaginemos aquela criança a ouvir o senhor dizer que o tal muro era inútil. Imaginem essa mesma criança 30 anos depois, arquitetando um projeto que destruísse o mesmo Muro da Mauá.

História é desinteressante, filosofia não serve para nada. Skakespeare, Kant, Nelson Rodrigues, o muro pichado pelo qual eu passo todos os dias. Por que eu deveria estudar qualquer dessas coisas que aparentemente não me trazem nada?

Este sacrilégio do não pensamento sempre me leva a uma questão: se aos seres humanos cabe o diferencial do raciocínio, em comparação a outras espécies, cabe chamarmos alguém que não pensa de humano?

Por fim, aquele senhor acabou me ensinando algo através de sua ignorância. Eu aprendi com ele que, em nossas mentes, existem mais muros inúteis a nos cercar do que na cidade.

Use sabiamente seu poder de pensar ou, alguém, através das palavras, erguerá em ti barreiras intransponíveis.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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