Outro modo de pensar

Por: Greice Scotton Locatelli | 25/01/2019 06:00:22

De tempos em tempos eu ouço uma reclamação peculiar a respeito de Bento Gonçalves: por que algumas coisas tendem a ser tão difíceis por essas bandas? Logo lembrei de alguns exemplos recentes, como o da psicóloga que confidenciou durante uma entrevista que é comum as pessoas fecharem o vidro do carro quando há distribuição de panfletos sobre prevenção do suicídio porque não se sentem à vontade com o assunto. Ou, ainda, como aplicativos de transporte que funcionam no mundo todo acabam não tendo a mesma eficácia por aqui porque alguns motoristas fazem corridas “por fora”, justamente em horário de pico, para lucrar mais.

Na última semana, após uma matéria sobre o aplicativo Angels Doações (que permite que você doe valores para manter projetos sociais de entidades locais através do celular e pagando no cartão de crédito), ouvi muitos elogios à iniciativa, alguns – infelizmente – procedidos de um “mas”. “Muito legal, mas acho que em Bento não cola”. “Ah, é uma ideia genial, estava mesmo precisando, mas não sei se o pessoal de Bento vai aderir”. “Show de bola, mas será que em Bento vai funcionar? O pessoal é meio receoso”. Decidi criar, então, o meu terceiro desejo para 2019: mudar esse modo de pensar – só para contextualizar, as duas primeiras sugestões, publicadas neste mesmo espaço, foram “mais empatia, menos mimimi” e “mais notícias boas do que ruins”.

Eu nem havia terminado este texto e novos exemplos surgiram e trouxeram à tona outro problema: a rabugice. Um deles é uma repetição de uma polêmica datada de exatamente um ano atrás: os tais R$ 15 de contribuição para o Consepro, cuja guia de colaboração espontânea será enviada junto ao carnê do IPTU. O nome já diz, é ESPONTÂNEA, ou seja, paga quem quer. O valor é irrisório para muita gente, mas faz uma diferença e tanto na hora de equipar e manter os órgãos de segurança se somado o esforço de centenas. Sim, eu sei que a gente já paga um monte de imposto, que segurança é um dever do Estado, que não é nossa obrigação etc etc etc. Eu não sei quanto ao mundo em que você vive, mas no meu as coisas estão muito, mas muito longe do ideal.

O segundo exemplo diz respeito ao trânsito. Ah, o trânsito! Nessa Bento Gonçalves que cresceu desordenada, poucos assuntos geram tanta polêmica quanto esse. Cada mudança, por menor que seja, é sinônimo de uma chuva de reclamações, geralmente de forma imediata. Nesta semana, foi a vez dos semáforos do bairro Santa Marta. Não faz muito tempo, era uma reivindicação da comunidade. Até uns dias antes de entrarem em funcionamento, a queixa era que estavam lá só como “enfeite”. Agora, é porque atravancaram o fluxo de veículos. Calma, gente! Mudança requer adaptação. E adaptação leva tempo.

Eu nasci e me criei em Bento Gonçalves e amo essa cidade de coração. Mas preciso concordar que em certos momentos a resistência à mudança atrapalha. Mas, assim como sei que muita gente que mora aqui é “cabeça dura” – como dizem –, sei que há muito mais gente que adora essa terra apesar de todos os defeitos que ela possa ter porque, no fundo, sabe que todos os lugares têm problemas e que muitos deles podem ser amenizados se cada um fizer a sua parte. 

Que tal começarmos hoje, agora, a mudar isso? Um pensamento de cada vez, uma atitude positiva de cada vez, uma reclamação menos imediata de cada vez. É assim, devagar e sempre, que se muda o mundo.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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