Amor próprio? Só a quem se merece

Por: Felipe Sandrin | 25/01/2019 06:00:17

Na onda da autoajuda, o amor próprio aprendeu a surfar. Mas nada de mergulhos, esse tal “amar-se” fica na superfície. Para quem olha de longe parece forte, equilibrado e coerente, mas basta uma onda mais forte e lá se vai, se espatifa engolido pela profundeza da complexidade que abrange esse tal amor que deveríamos dedicar a nós mesmos.

Com o decorrer da autoajuda, o amor próprio acentuou-se no venenoso Eros da vaidade. “Ame-se porque você é incrível. Ame-se porque você é muito. Ame-se porque você merece. Ame-se como é”. Como um mantra que se muito repetido pode modificar a realidade depressiva e distorcer o concreto fato de que o amor só é amor se existir autêntica admiração.

Por que deixamos de nos amar, então? Porque não há autenticidade nesse dado sentimento. Amar-se requer busca, autoconhecimento, um mergulho em si: e qualquer um que já mergulhou em si sabe o estranho medo que na profundeza habita.

Queremos nos amar, mas não conseguimos, e não conseguimos porque não vemos reais motivos para darmo-nos esse amor: afinal, por que você se deveria amar? Por que você deveria amar o que é quando não está feliz com o que é? Podemos, sim, nos olharmos no espelho e dizer: “eu estou feliz assim”. Mas de fato estamos? Pois se há uma gota de dúvida em você, acredite, essa gota será o oceano de sua inveja, de seu olhar inquisidor sobre aqueles que parecem tão mais obstinados que você.

Se o real amor é ágape, se ele emana das reais qualidades aprimoradas, então precisamos nos aprimorar, precisamos ser melhores, fazer e refazer, aperfeiçoarmo-nos de tal forma que finalmente possamos contemplar a obra máxima do que somos. Então, diante desse ser que lutamos para ser finalmente amarmo-nos não apenas pelo resultado, mas, sim, pela capacidade de luta e sincero enfrentamento.

O amor próprio colou como discurso, mas fracassou totalmente se tratando de salvar as pessoas delas próprias. Porque por mais que possamos fingir um amor, no fim ele sempre evapora através de nossa frágil carcaça de falsos convencimentos.

Ninguém jamais poderá se amar enquanto não fizer o seu melhor para combater o seu pior, seus vícios, a luxúria, a inveja e, claro, o ego. O autoamor depende antes de tudo de uma contemplação sincera de si, uma prova própria de que tudo o que se pode fazer está sendo feito.

Porque as palavras não preenchem o vazio. A proclamação sem ação é o pior dos venenos. O amor sem motivo de amar-se é em breve a total anulação.

Quer se amar? Aja. Não disfarce o que lhe faz infeliz, mas combata. Não discurse, pois as palavras são ditas facilmente, mas o agir é o princípio da descoberta e da real contemplação.
Não minta se amar enquanto você está no sofá. Não finja estar de bem consigo apenas para impressionar os outros. Não acredite nas preguiças como formas pacientes de construção.

Quer ser mais? Faça. E faça para ser o melhor naquilo. Aceite tudo como uma constante competição. É você contra você. E se na próxima semana você não for tão bom quanto nessa, então não gaste energia tentando se amar. Ame-se quando sentir merecer. Do contrário, sobra apenas o doloroso veneno de quem tenta amar-se e – como em tudo – fracassa.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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