Menos gente inútil

Por: Greice Scotton Locatelli | 02/01/2019 06:00:44

“Que fique claro de uma vez por todas: aquela foto que você viu nas redes sociais de uma menina gritando, solitária, no meio da lama não tem qualquer relação com o terrível desastre ocorrido em Brumadinho. O mesmo acontece com a chocante imagem de uma grávida deitada de lado e totalmente coberta por lama que você recebeu no WhatsApp. Ela também não estava em Minas Gerais quando a barragem da Vale rompeu”. Faço da indignação da Cristina Tardáguila a minha. Cristina é diretora da Agência Lupa, a primeira agência de notícias do Brasil especializada em fact-checking (checagem de fatos, em português). Só o fato de haver mercado para empresas desse tipo já demonstra o tamanho do problema: as notícias falsas (fake news) ganham cada vez mais espaço graças a pessoas que, muitas vezes na ingenuidade, saem acreditando (e espalhando) tudo que veem na internet.

De quem é a culpa? De todos nós, quando compartilhamos informações especialmente via WhatsApp sem saber se são verídicas. Mas, especialmente, a culpa é dos inúteis que criam esse tipo de coisa. Sim, eu sei que “inúteis” é uma palavra forte, mas foi a menos ofensiva – ou mais “publicável” – que eu encontrei para descrever pessoas assim.

Em meio a uma tragédia do tamanho da registrada em Brumadinho, o que leva alguém a procurar na internet a foto de uma criança brincando em uma “festa da lama” nos Estados Unidos ou de uma grávida que se cobriu de barro durante um protesto e postar como sendo de Minas Gerais? Que desejo doentio é esse de tentar tornar ainda mais triste uma situação já absurda? Você acha certo alguém querer se promover e ganhar “likes” postando fotos e informações que só servem para alimentar ainda mais a tristeza de um país e acalorar discussões políticas que não levam a nada?

Pois saiba que as consequências não param por aí. Conforme divulgou a Agência Brasil, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais fez um apelo em razão dos prejuízos que as notícias falsas sobre a tragédia têm causado. O tenente Pedro Aihara citou como exemplo conteúdos indicando a existência de sobreviventes. “Quando são acionados por questionamentos ou pistas desse tipo, os bombeiros têm de ir atrás e conferir se no determinado local sugerido haveria ou não alguma pessoa que resistiu à tragédia”, avisa. “Toda a veiculação desse tipo de notícia, quando é falsa, prejudica, e muito, e atrasa o importante trabalho que a gente está fazendo em relação à recuperação desses corpos”, lamentou.

Há também os aproveitadores: pessoas que espalham números de contas bancárias nas quais se pode depositar valores para ajudar as vítimas da tragédia – obviamente falsas. Aposto que os donos das tais contas devem estar agradecendo a ingenuidade de quem quis ajudar – a enriquecê-los, no caso. 

A onda de notícias falsas é tão assustadora quanto a de rejeitos que vazou da barragem. Cristina conta que uma gravação que supostamente mostrava “o momento exato” em que a barragem de Brumadinho ruiu também é falsa – era de 2015, quando parte das obras de uma usina hidrelétrica em Sinop (MT) caiu. “Depois veio um filme que mostra um desastre ocorrido no Laos em setembro de 2017. Na gravação, é possível ver um rio de lama e pessoas tentando sair do local. São funcionários da empresa Intergroup — não da Vale — que nem sequer falam português. Mas pouquíssimos foram aqueles capazes de identificar essas diferenças gritantes”, lamentou.

Há ferramentas gratuitas e disponíveis na internet que podem ajudar qualquer um a se certificar sobre a veracidade de uma foto e site confiáveis em que se pode verificar informações. Faça sua parte! Menos gente inútil é outro desejo meu para 2019.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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