Os picaretas de Bento

Por: Felipe Sandrin | 02/01/2019 06:00:52

Quando você ouve falar que alguém novamente caiu no golpe do bilhete premiado, qual sua reação? Muitos têm como primeiro comentário: “É burro, tem que se lascar mesmo quem cai nisso”. E quando você ouve falar de pessoas que caem no golpe do apartamento na planta? Do terreno em Pinto Bandeira? Pois é, os picaretas também se modernizam e um dia o “dançarino” pode ser qualquer um de nós.

É mais fácil falar do lugar que vivemos, pois ali obviamente temos mais referências, mas ao que me parece Bento tem uma grande concentração de picaretas por metro quadrado. Estou errado? São histórias inacreditáveis que surgem todo mês e qualquer um com acesso a grupos de WhatsApp pode desfrutar dessas trágicas e cômicas histórias da terra do vinho. O mais engraçado? Os nomes envolvidos nos golpes são quase sempre os mesmos. Pergunto: como diabos os picaretas conseguem ter tantos clientes em uma cidade tão pequena que tem por hobby fofocar sobre a vida de outros? Por que as pessoas precisam desesperadamente cair em golpes dessas pessoas já conhecidas? Talvez a resposta para essa pergunta seja o famoso olho grande. A oportunidade de ouro parece mais convidativa do que o nome sujo na praça.

Deixe-me contar uma história. Alguns anos atrás, um desses picaretas que estava totalmente “queimado” foi a uma concessionária para adquirir um veículo de luxo. Ele passou horas lá negociando e consumindo tempo dos vendedores. Pois bem, após tantas horas não foi difícil conseguir um test-drive com o carrão – afinal, o que poderia dar errado? O carro tinha seguro e o picareta não era conhecido por esse tipo de crime. E lá foi ele dar a sua voltinha. Uma hora depois, estava de volta com o discurso de que não tinha gostado muito e iria pensar na compra. Pois bem, nessa uma hora o cara visitou gente para quem estava devendo e adivinhe só: ele conseguiu bônus com essas pessoas, o carrão lhe concedeu o status para um novo golpe naqueles a quem ele já devia.

Moral da história: essas pessoas, os picaretas, são profissionais do golpe, está na essência deles a arte de manipular. Se você escutou histórias por aí, se você ouviu falar, pense duas vezes antes de abraçar aquela incrível oportunidade que parece estar caindo no seu colo. Lembre-se que oportunidades de ouro não costumam surgir de mãos sujas.

Cuidado com esses que chegam de carrão, com relógio brilhante e roupa de marca. Olhe para aqueles que construíram a nossa cidade, veja como esses que tanto sujaram as mãos com trabalho são diferentes e humildes se comparados com esses que hoje surgem oferecendo oportunidades incríveis. Não se deixe levar pela visão nem pelas palavras articuladas. A ganância do golpe nunca está apenas em quem vende a oferta mentirosa: essa ganância quase sempre é a cegueira da honradez. O enganador sente o cheiro dos que estão querendo o dinheiro fácil.

Na cidade dos sobrenomes, muitos herdeiros preferem sujar as mãos com golpes. Não deixe que sua ganância torne você a próxima vítima. Há um golpista em cada esquina e o próximo bilhete premiado dele pode ser você.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 697
15/02/2019 08:00:52
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA