Não esqueçamos

Por: Greice Scotton Locatelli | 02/08/2019 06:00:15

15 dias se passaram desde a tragédia em Brumadinho (MG). Para quem perdeu tudo, de pessoas queridas a documentos, bens materiais e dignidade, imagino que pareça que o tempo não passou. Para a imprensa, já virou notícia velha, tal qual o outro incidente envolvendo a barragem Fundão, em Mariana, há pouco mais de três anos.

Se você acompanha os grandes jornais, rádios e emissoras de tevê do país, deve ter percebido que, após uma primeira semana de notícias em tempo real, grandes reportagens especiais e coberturas ao vivo, a quantidade de matérias caiu drasticamente antes mesmo do 10º dia de buscas, enquanto ainda havia mais de 200 vítimas consideradas desaparecidas – que, aliás, já deveriam estar sendo chamadas de “mortas”, uma vez que desde o 5º dia os Bombeiros já não davam mais chances sequer mínimas de encontrar sobreviventes. E, infelizmente, muitas delas serão apenas lembrança, já que provavelmente algumas dezenas de corpos não sejam localizadas em meio ao mar de lama que assolou Minas Gerais mais uma vez. 

Na mesma proporção em que “esfria” a cobertura sobre o caso, ele vai caindo no limbo do esquecimento. De repente o esforço dos Bombeiros e voluntários (verdadeiros heróis) vira “paisagem”, a mobilização e a comoção diminuem, grandes escritórios de advocacia ganham tempo e usam brechas na lei para postergar o pagamento de multas – quando pagam –, as indenizações atrasam. E, tal qual Mariana, a história se repete e termina com vítimas buscando de forma solitária uma justiça que talvez nunca venha. Vítimas que perderam tudo pela ganância e irresponsabilidade alheia. “Desde o rompimento de Fundão, nada foi feito para evitar que esse tipo de desastre aconteça”, afirmou o procurador Carlos Eduardo Ferreira Pinto, chefe da força-tarefa que investigou o rompimento em 2015 da barragem do Fundão, em Mariana, ao tomar conhecimento do novo desastre. A frase publicada pelo jornal Folha de São Paulo mostra claramente como tudo pode cair no limbo do esquecimento de forma bem rápida e, ao mesmo tempo, como o lucro das grandes empresas segue intacto em detrimento de vidas e da destruição do meio ambiente. 

Estamos longe do epicentro de tragédias desse tipo, mas não estamos livres delas – quem pode garantir que está? Entretanto, temos as nossas próprias. Respeitando-se as devidas proporções, tudo que envolve burocracia e/ou falta de vontade política e que dizima vidas pode ser considerado tragédia. Quantas pessoas morreram no trevo da Telasul ou na BR-470 antes que providências efetivas fossem tomadas? E quantos pacientes perderam a vida à espera de atendimento pelo SUS? Quantas crianças e adolescentes entraram no mundo das drogas e da criminalidade porque não tivemos políticas públicas adequadas? Quanto dinheiro público foi desperdiçado com obras que não fazem a menor diferença na vida das pessoas e que poderiam ter sido aplicados em educação e saúde? Quantos crimes poderiam ter sido evitados se um novo presídio tivesse sido construído há 30 anos, quando se começou a mobilização pela obra? 

Que nosso empenho em cobrar dos governantes medidas que garantam a nossa própria sobrevivência não perca a força como aconteceu com o interesse em Brumadinho. Que tenhamos discernimento e coragem para denunciar o que estiver errado e cobrar um posicionamento claro de que detém o poder. Simplesmente, que as coisas importantes não caiam no limbo do esquecimento em 2019. Esse é mais um desejo para este ano.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 706
18/04/2019 08:00:43
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA