Força mental

Por: Felipe Sandrin | 02/08/2019 06:00:28

Uma amiga se elegeu para um importante cargo político, e claro, em tempos em que discordar abre portas a ferrenhos ataques, ela não passou em branco. Logo aqueles com ideias contrárias passaram a disseminar falsas e absurdas informações sobre essa mulher de conduta ilibada. Eu – pensando que ela pudesse estar triste em decorrência das falsas acusações – resolvi puxar uma conversa animada até cair no lamentável assunto.

“Felipe, eu sobrevivi a abusos de um padrasto. Eu sobrevivi à minha mãe não acreditando que a filha era abusada por esse homem que ela trouxe para dentro de casa. Eu sobrevivi a sete anos de trabalhos intercalados com faculdade. Guardei o almoço para garantir a janta. Fui rejeitada em quatro empresas antes de abrir a minha própria e faturar meu primeiro milhão. Eu fui processada por partidos políticos inúmeras vezes. Criei dois filhos de uma irmã que morreu e, mais do que isso, formei dois cidadãos exemplares para o mundo. Fala sério? Você acha que comentários em redes sociais podem me magoar e fazer perder o sono?”

Só quem toma muita pancada sabe o que acontece quando se sobrevive a elas. Só quem vence um câncer sabe do poder contemplativo de cada novo dia de vida. Só quem viveu na miséria sabe que o que é o medo de sentir fome e lutar pelo pão de cada dia. Só quem muito rastejou entende a importância de se erguer. É isso: sobreviver às pancadas e, a cada uma, fazer-se mais forte.

Em 2018 pude conhecer pessoas incrivelmente fortes mentalmente. Gente que não se abala com críticas em Facebook. Gente que dá risada de provocações e palavras jogadas ao vento pelos desconhecidos que vagueiam como zumbis pela internet.

Se alguém chega com um presente e tenta lhe entregar, mas você não aceita: o que acontece? O presente fica com aquela pessoa. O mesmo serve para as ofensas, as agressões e os ataques rasteiros.

Eu tinha vinte e poucos anos quando sofri os primeiros processos vindos do PT: e não falo desse PT de hoje – desmoralizado e carcomido pelo definhamento de seus líderes presos – falo do PT forte, disposto a tudo. Sabem como eu saí desses processos? Muito melhor do que entrei. Ostento com carinho os papéis de intimação. Eles estão emoldurados e servem como lembrança de quem já tentou me derrubar e, por fim, só me fortaleceu.

Há dois principais grupos de pessoas no mundo: as que perdem o sono à noite quando são confrontadas e as que vestem a melhor roupa para encarar aquilo que causa desesperada tensão a outros.

Força mental não se adquire em casa ou cumprindo oito horas de trabalho diárias. Força mental só vem com você caindo e aprendendo a se levantar. De nada adianta uma história de vida se essa não tornar você imune às pancadas futuras.

Tem gente que desaba com meia dúzia de críticas. E há aqueles que precisam de quem os critique para perceberem o quanto estão à frente.

Águia voa com águia, sempre foi assim. Enquanto isso, lá embaixo, as codornas se acotovelam por alguns grãos de ração ou alguns segundos de atenção.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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