Uma lacuna na inspiração

Por: Greice Scotton Locatelli | 15/02/2019 06:00:53

O plano não era esse, nem o texto. Mas, como a vida, às vezes o improviso se faz necessário. A sétima semana de 2019 reservou mais uma notícia tipo “soco no estômago” e que, particularmente, me fez refletir em qual o sentido da vida que não amar o próximo, seja ele quem for. A perda do jornalista Ricardo Boechat é muito mais do que uma lástima ou um marco no jornalismo nacional. Vai além da relação de fã e ídolo ou daquelas típicas homenagens que tornam qualquer pessoa que morre alguém de bem. A partida de Boechat deixa uma lacuna não apenas para mim, como profissional da comunicação, mas para o Brasil pela forma como ele exercia sua função na imprensa. 

Perdi a conta de quantas vezes ele me inspirou a escrever neste mesmo espaço. Assim como quantas vezes ele me fez parar o que quer que eu estivesse fazendo para ouvi-lo com atenção, às vezes em estado de choque por alguma atitude corajosa – eu pensava “esse cara é maluco” e, em seguida, percebia minha admiração crescer ainda mais. Ou de quantas vezes ele fez eu me questionar sobre como realmente poderia fazer a diferença neste mundo. Os dias em que ele deu o próprio número de telefone no ar, ou quando afrontava outros repórteres brigando para que simplificassem determinada informação porque o ouvinte ou telespectador não estava conseguindo entender – de repente me dei conta de onde veio minha “chatice” quanto a isso. Ou, ainda, a humildade com que ele se posicionava quando não sabia algo e, sem pudor algum, perguntava. 

Desde as primeiras semanas de faculdade eu sempre tive em mente que ele era o modelo de profissional que eu queria ser um dia. E, embora eu tenha “copiado” algumas dessas atitudes e não tenha faltado dedicação, ainda estou a anos-luz da sombra dessa meta – e provavelmente não será nesta vida. Mas, como Boechat dizia, é necessário “tocar o barco” e tentar ser melhor a cada dia.

A vida é um sopro, minha gente, e certas notícias nos deixam consternados, comovidos e confusos sobre o que realmente estamos fazendo aqui. Se vale a pena brigar por coisas sem importância, se as preocupações que nos tiram o sono valem o sacrifício. O desprendimento de voltar ao ar após uma crise depressiva e falar abertamente sobre como se sentiu para que outros na mesma situação buscassem ajuda, a coragem de enfiar o dedo na cara das autoridades e comprar brigas para que a vida da população melhorasse. Ricardo Boechat era o que todos nós, jornalistas, deveríamos pelo menos tentar ser – guardadas as devidas proporções.

E não me refiro a ser graduado, pós-graduado, mestre, doutor, estudioso da comunicação. Um repórter novato em suas primeiras semanas em uma redação pode ser muito mais “gente” do que alguém com uma carreira de 50 anos no jornalismo, coberturas consagradas no currículo e reconhecimentos internacionais. Boechat tinha um pouco dos dois mundos. 
Na tragédia em Brumadinho (MG) ele foi um dos primeiros a defender que era para contabilizarmos mortos e desaparecidos todos como mortos porque aí sim teríamos a real dimensão da tragédia. É uma coisa tão óbvia! E é essa simplicidade de pensamento que o tornava genial.

Que bom que o Brasil teve a oportunidade de conhecer e ser mudado por Ricardo Boechat. E que essa comoção pós-morte traga inspiração para outros profissionais da comunicação para que tentem ser uma vírgula do que ele foi em vida: imparcial, honesto, corajoso e, especialmente, preocupado em melhorar o mundo em que vivemos Que a morte dele nos incentive a sermos seres humanos melhores a partir dos exemplos que ele nos deixou. Acima de tudo, que aprendamos a “tocar o barco”, mas sem descuidar do que sentimos porque, mais uma vez, a vida é um sopro e ninguém sabe o dia de amanhã. Fica o registro da minha admiração por pessoas como Ricardo Boechat e o desejo que 2019 consiga ser um pouco mais leve a partir de agora. Descanse em paz e obrigada, mestre Boechat!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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