Aos vivos, um amém

Por: Felipe Sandrin | 15/02/2019 06:00:43

Um helicóptero cai para lembrarmos o quanto é frágil a vida. Uma barragem colapsa e quem estava almoçando nem tem tempo de perceber que esse é o último almoço. Um garoto sonha e o primeiro passo desse sonho se realiza, até que, em uma noite comum, o incomum das chamas que invadem um quarto termina com esses sonhos.

Mas é frágil a vida a quem foi ou a quem fica? Por que mesmo diante a tantas tragédias não conseguimos perceber a grandiosidade de chegar em casa e poder ver as pessoas que mais nos amam?

A morte é apavorante, sempre foi, e não há tragédia que nos acorde para esse despertar de saudade antecipada. Dói ao imaginar aquela noite em que ficamos em claro a nos despedir de quem marcou nossa vida.

Vivemos assim de luto, mesmo que não tenhamos perdido alguém tão ligado a nós. Vivemos um invisível e apavorante luto, sentimos por vezes o gosto amargo da realidade que um dia nos baterá à porta e gritará uma notícia dilacerante... mas é breve tal sentir.

Não há anos horríveis, pois todos os anos são ao ponto de vista da dor de alguém. Um vizinho morre, mas nossa dor não se compara à de quem com ele convivia. Um primo distante é atacado pelo adeus eterno, mas não nos dói tanto quanto talvez gostaríamos de transmitir. A morte de outro é geralmente um sopro tão breve de realidade que se faz incapaz de movimentar nosso frágil barco do luto interminável. Até que um dia venta em nosso cais, nosso porto sucumbe e toda imensidão do mar não se pode comparar à imensidão de dor que agora nos habita.

Não passa. Não cicatriza. Dói para sempre. É verdade, claro, que a dor se modifica. Essa é a vida, ela se modifica à nossa volta tanto quanto dentro de nós. Os sentimentos se revolucionam, as memórias se reinventam e ao que chamamos de estar melhor é apenas a parcial aceitação de que nós giramos igualmente nessa roda da morte: logo seremos nós.
A tragédia então não está na morte, mas na vida não sentida, não provada em todos os sabores possíveis.

Dói o amor que não se cumpriu? O namoro que terminou, o casamento que se transformou em até nunca mais? Sim, dói porque estamos vivos. E que lástima seria não sentir o gosto amargo dessa decepção, a angústia de ver a garota amada e sua mão dada com outro. Dói porque essa é a nossa única chance – pelo menos ao que sabemos – de provar o amargo e doce gosto da vida.

Morrer dói a quem permanece e a dor de quem se foi se distribui entre os que aqui ficam. Mas dói muito mais o não viver, a lápide que carregamos sobre as costas como se não merecêssemos a vida. O cadáver em nossa sala, um corpo oco a nos lembrar dos medos que nos roubaram esse gosto da vida.

Tão sagrada uma decepção, tão quanto o realizar. Um segundo nos braços de quem amamos; uma noite incrível de amor e ali se dissipa a gota de uma vida que nos contamina com o querer mais. E esse é o gosto mais fantástico que a vida nos oferece.

Não deveríamos ter medo de morrer, mas, sim, de não viver. Aliás, é o que mais vemos hoje, vivos que não vivem e mortos que já não nos lembram tão bem sobre o valor de chegar em casa e ter a quem nos ama também.

Oremos então em nome dos vivos que não vivem. A esses, sim, nosso amém.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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