Aos corações desesperados

Por: Felipe Sandrin | 22/02/2019 06:00:47

É o que mais tenho encontrado pelo caminho: pessoas que idealizam um futuro e esquecem os meios.  “Você quer casar e ter filhos?”. É assim que muitas mulheres me abordam. Devolvo então a pergunta: “Você quer?”. A resposta geralmente surge carregada de certeza: “Claro que quero.”

Um plano, um objetivo e uma lacuna imperceptível cobrando um alto preço. Quando o futuro se torna tão aparentemente claro o esforço se torna quase obrigação: mas o meio não deveria ser de sofrimento, não deveríamos precisar suportar para merecer. Relações, casamentos, filhos, tudo isso deveria ser produto da mera naturalidade, porém, hoje, o que mais vemos são pessoas abraçando jacaré como se fosse tronco. O desespero pela adequação, para encaixar-se socialmente tomou o espaço dos meios. O que deveria ser natural ficou forçado, logo, o que deveria ser alegria compartilhada virou uma corrente pesada atando casais que se destroem voluntariamente.

Por que precisamos gritar aos quatro ventos nossos objetivos? Facilita ao mundo saber o que queremos? E não queremos todos a mesma coisa? Felicidade, compartilhar alegrias, a sorte de envelhecer cercados por relações saudáveis e sustentadas em amor? Sim, é o que pelo menos a grande maioria de nós quer. Por que então tomar-se desse desespero, por que tantas escolhas erradas? Por que há tantas pessoas vestindo armaduras ao mesmo tempo em que tentam parecer leves e saltitantes?

Copos cheios. Cheios de passado, de decepções, de planos que não se concretizaram. Estamos tão invadidos de passado que mal sobra espaço para o presente, quem dirá então para o futuro. Meninas de dezoito anos que falam sobre o sonho de terem famílias, já outras – da mesma idade – dizendo que não buscam filhos, apenas sucesso profissional. Por que tantas pressões, tantas certezas mentirosas?

Quando a boca certa te beija, quando o corpo certo lhe encaixa, quando o olhar e sorriso certo invadem seu dia, tudo se torna natural, quem sonhava ser solteiro para sempre mergulha na felicidade a dois; quem tinha planos para os próximos vinte anos começa a mudar todos os planos. Não é bagunça não, é reorganizar-se, é reinventar o mundo e perceber que há coisas dentro de nós que só a vivência acende e revela.

Tão métricos para o amor. Tão certos da dor que não queremos nunca mais sentir. Como se a razão pudesse domar tudo, como se não estivéssemos nós mesmos sentados nesse coração mecânico que estremece até nos derrubar.

Pare com essas pressões, não deixe o futuro invadir seu presente de tal forma que o desespero lhe cegue para quem está ao seu lado. Pare de forçar as peças desse quebra-cabeça emocional. Mais do que aceitar o que a vida trará, molde suas escolhas, melhore-se, aperfeiçoe-se e, por fim, desfrute do que irá chegar. Sempre chega. Não quando a gente quer, mas quando finalmente estamos prontos.

Felicidade chega invadindo, arrebenta a porta e nos carrega nos braços. Não dá para ficar mendigando alegria e realização. A gente se constrói todos os dias e um dia – sem perceber, sem grandes planos – a mágica simplesmente acontece.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 719
19/07/2019 08:00:44
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA