O silêncio é a melhor escolha

Por: Greice Scotton Locatelli | 03/08/2019 06:00:45

Em tempo de redes sociais dando voz a todo tipo de opinião, prefiro pensar que o silêncio pode ser a melhor escolha. É muito mimimi, muito “achismo” superficial, muito comentário imediatista sem argumento, muita gente sem noção de quanta vergonha passa, muito “Maria-vai-com-as-outras”. Enfim, a internet se tornou reduto para pessoas de todo tipo – o que não necessariamente é ruim – mas evidenciou uma rabugice que em determinados dias testa nossa paciência.

Aqui no SERRANOSSA, nos últimos anos temos enfrentado diversos dilemas quanto ao tipo de conteúdo nessa migração que envolve a tecnologia – aliás, esta é a 700ª edição que publicamos. Se há dez anos, quando começamos a ganhar corpo no mercado, a demanda era por um jornal impresso mais sisudo, com reportagens extensas e aprofundadas, hoje é exatamente o oposto. Percebemos pelas reações do nosso público que tamanho já não é importante, pelo contrário: muitos têm dificuldades em interpretar textos (mesmo os mais simples) ou até mesmo preguiça de ler. A importância dada a notícias banais também cresceu exponencialmente. 

Além disso, a instantaneidade da internet trouxe outro comportamento peculiar: muitos dos nossos leitores não querem nada que exija tomar uma posição ou “pensar”. Certa vez, conversando com o seu Josué, um daqueles leitores de carteirinha, que não perde uma edição do jornal, eu me dei conta disso na prática. Ele argumentou que passa o dia estressado, preocupado com o trabalho, com a família, com as finanças, e que não tem tempo nem vontade de se estressar lendo notícias que não vão mudar em nada a vida dele. Pior é que não deixa de ser verdade, por mais triste que seja admitir isso – um parêntese aqui: há notícias e notícias e muitas delas impactam a rotina da comunidade e precisam ser divulgadas, faz parte do nosso papel enquanto imprensa.

Então, a pergunta que fazemos a nós mesmos quase todo dia é: o que publicar? Só notícias banais, passatempos, textos curtos que demandem apenas um mínimo de interpretação? Não penso que seja esse o papel do jornalismo, especialmente o impresso, independentemente do tamanho do veículo de comunicação. Entendeu o tamanho do dilema?

O fato é que, mais do que nunca, está cada vez mais inviável agradar uma maioria e agora quem não gosta de algo que você publicou pode exercer o direito de opinar a respeito disso. Isso é saudável, necessário e útil quando você faz uma autoanálise do seu desempenho, seja em que setor for. O problema é quando falta de educação e respeito entram em cena e o internauta usa palavras de baixo calão, ofende quem está trabalhando e denigre a imagem de uma empresa sem motivos. 

Em dias assim, fica complicado se motivar a tentar ser melhor sempre. Em dias assim, a vontade imediata é de descer o nível e rebater com algumas verdades. Mas, tão logo a gente recobra a consciência, percebe que uma frase do palestrante Leandro Karnal é muito válida: “não dá para tocar tambor para maluco dançar.” Até porque pessoas sem noção sempre existiram e sempre existirão. A diferença agora é que elas têm voz e muitas delas não sentem nem um pingo de receio em passar vergonha e mostrar um lado mal-educado – e muitas vezes ignorante – em público. Para situações assim, o silêncio é, sim, a melhor escolha.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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