O bloco dos desesperados

Por: Felipe Sandrin | 03/08/2019 06:00:37

A cada ano, eu me assusto menos com o Carnaval. Neste, por exemplo, pude perceber a fragilidade emocional daquelas pessoas que mal conseguiam permanecer em pé. Garotas desesperadas para mostrar o corpo, garotos desesperados para afogar a consciência em drogas e serem assumidos pelo puro instinto animal. São esses os desejos de Carnaval, a inconsciência, o instinto primal como meta de sucesso.

O Carnaval é um retrato minimalista do que de fato acontece com as nossas gerações, nossa forma de agir e pensar, nossos desejos reprimidos e nossas confusões mentais. Tudo isso se aflora nas épocas de folia. Talvez morando no interior você não consiga notar isso, mas para aqueles que residem em capitais ou grandes cidades, a assombrosa visão é mais clara. Um desespero invade os foliões inconscientes, ao mesmo tempo em que atormenta aqueles que, de longe, contemplam a formação dessa bola de cacos transfigurada de festa.

As ambulâncias não param. Comas induzidos pelo uso de álcool e de outras tantas drogas pesadas, drogas de vida. Na calçada, enquanto uma garota aguarda atendimento, as “amigas” posam ao lado dela. “Em breve, teremos história para contar”. É isso que queremos? Histórias para contar? Cada geração com seu próprio desespero. Ok, concordo, sempre tivemos a excitação jovial se destacando em festas dedicadas ao corpo, porém, que pessoa será amanhã essa que hoje luta para perder a consciência?

A fragilidade dos laços surge como um fator modificante para os resultados que, por décadas, se assemelhavam. Hoje, vemos famílias totalmente desestruturadas. A frase “corra atrás do seu sonho” criou alguns poucos vencedores e uma legião de instáveis que não sabem ao certo quais são esses tais sonhos prometidos. Amizades frágeis, relacionamentos frágeis e pilares familiares sensíveis demais para servirem como apoio. Tudo isso se soma para, ao fim da ressaca, surgir o peso da realidade intransferível.

Sempre usamos drogas, sempre ostentamos a comemoração e buscamos, desesperados, o sexo... sempre! Porém, diferente de outras épocas, agora não há mais a sobriedade do amanhã. Não existe um solo firme para colocarmos os pés e vermos o mundo parar de girar. Não há uma realidade segura, não há empregos seguros nem promessas seguras, tudo é tão inconstante quanto as noites de Carnaval deveriam ser.

Uma síndrome invade aqueles que não se preenchem por laços fortes, logo o efeito crônico se apodera das ideias e, por fim, os dias de vazio se tornam tão longos que passam a ser chamados de anos. Anos de infelicidade assistida, copo atrás de copo, corpo atrás de corpo e um sucesso para o esquecimento cada vez menor.

Há uma dor em cada esquina, um disfarce que nada disfarça. Uma máscara rachada que revela a cicatriz daqueles que se fingem foliões de um ano todo.

Nunca se divertir foi tão triste, nunca foi tão triste o dia seguinte. E a cada ano se tenta disfarçar mais o que o desespero acaba entregando. Não é o começo de uma nova era, é o fim de qualquer coisa que antes sabíamos ser.

Nunca se comemorou tanto, se bebeu tanto, se sorriu tanto. Nunca também foi tão fácil perceber que felicidade desesperada é simplesmente a tristeza a se declarar.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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