Muitas perguntas, nenhuma resposta ou certeza

Por: Greice Scotton Locatelli | 15/03/2019 06:00:43

De tragédia em tragédia, vamos tentando absorver este 2019 lamentável para o Brasil e para a humanidade. Nesta semana, mais uma notícia do tipo “soco no estômago” veio de São Paulo, onde dois garotos entraram armados na escola onde estudaram e mataram sete pessoas, sendo cinco estudantes, logo depois de terem assassinado o tio de um deles a sangue-frio. 

As tentativas de elucidar o que leva uma pessoa a cometer esse tipo de atrocidade chegam tão rápido quanto a repercussão do incidente, mas em vão. Logo vêm também a indignação e a busca por uma justificativa – que, na minha opinião, não existe. O que leva um adolescente de 17 anos e um rapaz de 25 a quererem ferir outras pessoas com essa intensidade? Quanto ódio reprimido existia dentro deles para que precisassem extravasar desse jeito? Conviveram com influências ruins? Sofreram bullying? Simplesmente são pessoas ruins? Nada – nada mesmo – justifica entrar atirando em uma escola e matando pessoas inocentes.

Em Suzano não morreram apenas cinco alunos. Morreram as famílias deles inteiras. Por que não deve haver dor maior do que sepultar um filho, contrariando a ordem natural da vida. Morreram as famílias das funcionárias, que eram mães, avós, filhas, irmãs, tias e amigas de outras pessoas a quem, agora, cabe apenas o vazio do luto. Morreram também as famílias dos assassinos, marcadas para sempre como “responsáveis” pelo comportamento deles, mesmo que não tivessem como saber de nada – se você convive com adolescentes, sabe o quanto alguns podem ser bons em esconder tudo até dos amigos, imagine dos pais. A verdade é que, independentemente da idade, todos nós temos nossos próprios fantasmas e demônios e, na maioria das vezes, não os dividimos com ninguém.  Ou seja, por melhor que a investigação seja conduzida, nunca saberemos o que de fato motivou essa barbárie.

Quantas vezes você teve raiva a ponto de achar que poderia ferir alguém? O que diferencia eu e você de tantos “Guilhermes” e “Luízes” que podem estar canalizando toda a raiva de qualquer coisa – grave ou banal – para algo com esse desfecho? Temos um “freio” que eles não têm? 

Como explicar para seu filho que ele não precisa ter medo de ir pra escola porque esse caso é um “fato isolado” sem garantia de que não vá ocorrer de novo em qualquer lugar e a qualquer momento? Como impedir que a ignorância de alguns dê origem a uma caçada a qualquer adolescente que se destaque por não se encaixar nos “padrões” – aquele tímido demais, o que não gosta de estudar, o que é viciado em videogame? São dezenas de perguntas e nenhuma resposta ou certeza.

Em Suzano não morreu apenas o Caio, o Claiton, o Douglas, o Kaio, o Samuel. Morreu um pouco dos pais deles, dos avós, dos amigos e de quem convivia com eles. Em Suzano não morreram apenas a Marilena e a Eliana: morreram os maridos, os filhos, os netos e todas as pessoas que elas amavam. Em Suzano não morreu apenas o Jorge, morreu uma família inteira que precisará lidar com três tragédias simultâneas: o assassinato de um tio, morto pelo próprio sobrinho, a dor que um garoto causou tomando a decisão de participar do massacre e a perda dele próprio, que se suicidou depois.
Em Suzano morreram a escola e a alegria. Nada nunca mais será igual, tal qual tantas outras tragédias que se tornam lembranças um pouco menos dolorosas com o passar do tempo, mas ainda lembranças. Até quem sobreviveu morreu um pouco por dentro após ter vivenciado as cenas de horror absurdo que provavelmente os assombrarão pelo resto da vida, por mais amparo psicológico que possam vir a ter. 

Em Suzano morreu mais um pouco da esperança que nós tínhamos de que as notícias ruins das primeiras semanas de 2019 pudessem ter sido uma triste coincidência da vida. Em Suzano, morreu (mais) um pouco da nossa fé.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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