O Brasil é uma tragédia declarada

Por: Felipe Sandrin | 15/03/2019 06:00:35

No Brasil nós aprendemos desde cedo que confiar no governo é loucura. Não há promessas cumpridas, não há respeito quanto às nossas vidas nem qualquer dedicação ao povo que dá poder àqueles que lá estão. Roubam-nos na educação e saúde, mentem, enganam e praticam o poder com um único objetivo: mais poder.

Então me diga: se somos sugados desde sempre por esses seres manipuladores, como podemos confiar nossas vidas e nossa segurança a eles? Pois é isso que fazemos sempre que defendemos o desarmamento da população.

Nesta semana mais uma vez presenciamos como a covardia que habita a maldade. Garotos invadem uma escola com um único propósito: causar morte e sofrimento. E quem poderia detê-los? Se não há armas legais para combater aqueles que tão facilmente adquirem armas ilegais, como então podemos ter qualquer controle sobre nossas vidas?

Na última vez que estive no Paraguai vivenciei a facilidade para comprar armas. Nas ruas da cidade, você é constantemente abordado com ofertas para os mais diversos tipos e calibres. Qualquer um que sai do nosso país pode voltar em poucos minutos completa e ilegalmente armado. O Estado não averigua, não intimida nem protege, o Estado apenas proíbe, diz que irá garantir sua segurança. Mas quando um maníaco resolve estuprar mulheres ou invadir uma escola atirando, o Estado é o último a estar lá, quase sempre chega quando a tragédia já atingiu seu máximo.

Os números da violência no Brasil são assustadores, ainda mais assustadores se compararmos o crescimento diante do desarmamento inescrupuloso da população. Isso demonstra que a segurança dos marginais – aqueles que vivem à margem da lei – se estabeleceu a tal ponto que crimes absurdos como o de Suzano se realizam com total chance de êxito aos maníacos.

Nos Estados Unidos fica claro o temor dos atiradores quanto a áreas onde a população é mais armada. Até 2016, 69% dos ataques ocorreram nas chamadas “zonas livres de armas”. Isso mostra que o atirador é também um covarde por natureza: ele quase sempre irá escolher locais onde as pessoas estão mais indefesas.

É claro que a desigualdade ocupa um grande papel quando o assunto é violência. É claro que o Brasil viveu décadas de atraso estrutural que acabariam por refletir nessa escalada absurda, mas também não podemos esquecer que existem países muito mais pobres e desiguais que o nosso e os números da violência não chegam à metade dos registrados aqui.

De fato, vivemos a época dos perigos imediatos, dos medos a cada esquina, do temor quanto a nós e – mais ainda – quanto aos que amamos.

A impunidade se tornou uma preciosa mãe para os desajustados. A desculpa foi abraçada e muitos passaram a aceitar que a condição social define um assassino. O velho vitimismo tomou seu lugar e cavou um espaço de desculpa para atrocidades como as que vimos nesta semana em uma escola.

O Brasil precisará se reencontrar como nação, para que casos absurdos se tornem isolados. Estamos há muito tempo convivendo com banalidades que deveriam ser raras, mas que se tornam cada vez mais normais.

O sangue de gente inocente é uma mancha permanente e inapagável, ela motiva os covardes e sufoca os que seriam capazes de achar coragem para tentar reconstruir o que está quebrado.

De tragédia em tragédia, de impunidade em impunidade, a gente se acostuma a não fazer nada, e não fazendo nada a chama se apaga, até que um dia nós nem mais lembramos quando foi que tudo ficou tão escuro.
 
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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