Moderação é a palavra-chave

Por: Greice Scotton Locatelli | 04/05/2019 06:00:23

Tudo que é extremo tende a se complicar em todos os aspectos da vida – mesmo que seja para o “bem”. Buda ensinou a seus discípulos que os extremos da vida devem ser evitados: tanto o prazer extravagante quanto a abnegação exagerada, já que ambos provocam sofrimento.

Exemplos práticos: você é do tipo que come até os talheres, sem pensar nas consequências, e de repente decide levar uma vida mais saudável e corta determinados tipos de alimento da dieta de forma radical. Errado! O segredo é a moderação, comer de tudo um pouco, sem exagerar na quantidade, afinal, até as substâncias ditas prejudiciais (sal, açúcar ou gordura, por exemplo) precisam ser consumidas para o perfeito funcionamento do organismo. O mesmo vale para exercícios físicos: o extremo é ruim tanto se você for sedentário quanto se for “viciado”.

Na área profissional, depois de muita dedicação, você conquista o emprego dos sonhos. Sua vontade de crescer e mostrar a que veio é tanta que você passa a fazer muito mais do que o necessário: chega antes de todos, sai sempre depois. Leva trabalho para casa, abre mão da família, dos amigos e de necessários momentos de pausa em nome desse trabalho. Desculpe acabar com o seu entusiasmo: mais cedo ou mais tarde você vai precisar desacelerar e isso não será visto com bons olhos pelos colegas ou pela chefia – eles terão se acostumado a essa versão “ninja” e você acabará comparado àquele funcionário que vive pelos cantos fazendo corpo mole (tão radical quanto você, só que no sentido contrário).

Assim também é com relação a determinadas causas: você pode defender a sua religião com unhas e dentes, mas no momento em que decidir atacar alguém de uma crença diferente da que você pratica, seja verbal ou fisicamente, torna-se um problema. A defesa de direitos também demanda equilíbrio: você pode querer que as mulheres tenham igualdade perante os homens, mas se passar a odiar qualquer pessoa que não seja do sexo feminino por qualquer motivo que seja, será extremista. Na política, então, nem se fala!

Posturas radicais geralmente levam as pessoas a terem dificuldade de conviver com outras (especialmente com aquelas que têm opiniões diferentes). Tudo que foge do que é tido como “normal” para a sociedade acaba sendo rejeitado pela maioria, o que faz com que o radicalismo fique restrito a grupos menores – e essa bolha, por sua vez, só torna os radicais ainda mais incisivos, pois não apenas se identificam entre eles como também inspiram uns aos outros. Cria-se, então, um círculo vicioso: extremistas que se unem e se fortalecem de um lado e quem decide combatê-los de outro, o que faz com que esse grupo “do bem” se torne tão extremista quanto, mesmo quando a intenção é boa. Tal qual matar ou morrer, sem possibilidade de fugir, se esconder e esperar a poeira baixar. 

Basta uma rápida passada de olhos pelas redes sociais para perceber o quanto a comunicação on-line tornou frágeis as relações humanas e quanto a diversidade de opiniões perdeu espaço para discursos inflamados de ódio, comentários raivosos, falta de respeito e, sobretudo, de bom senso – e não falo apenas de polêmicas ou assuntos importantes: mesmo situações banais do dia a dia viraram alvo dos radicais de plantão. Ninguém sabe o que o futuro nos reserva, mas, se algo não mudar, sem demora chegaremos a um ponto em que todos os comentários on-line serão restritos a uma bolha com a qual ninguém mais se importa, mesmo que no meio da disseminação raivosa existam opiniões úteis, pertinentes e respeitosas.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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