Meus problemas se tornaram ridículos

Por: Greice Scotton Locatelli | 04/12/2019 06:00:35

Qual o maior problema que você enfrenta em sua vida nesse exato instante? Aposto que tem a ver com dinheiro ou com relacionamentos – saúde, talvez? Você não está sozinho nessa.

Na quarta-feira da semana passada eu acordei inquieta – algo que tem se repetido com uma frequência bem maior do que eu gostaria ultimamente. Havia dormido pouco e mal, tinha uma série de compromissos durante o dia (e um tempo bem apertado para cumpri-los), uma edição do jornal por fechar e algumas notícias preocupantes relacionadas à família me desconcentravam. Para piorar, enfrentei um trânsito caótico a caminho do trabalho, por pouco não sofri um acidente, e esqueci de encomendar almoço – ficar com fome me torna bem rabugenta. Tudo parecia estar indo de mal a pior, um dia daqueles em que a gente começa com o pé esquerdo e conta os minutos para terminar. No início da tarde, um acidente com morte me obrigou a pensar – como acontece comigo toda vez diante de algo assim – em qual o sentido de tanta agonia, afinal, em um milésimo de segundo tudo pode mudar para sempre: você pode perder a própria vida ou alguém que você ama. Parecia ser a cereja do bolo de um dia nebuloso, mas não: o acontecimento mais impactante do meu dia ainda estava por vir e ele tem nome: Josiane.

A Josiane entrou na redação do SERRANOSSA no meio do caos: minha mesa estava repleta de papéis, as matérias que eu precisava entregar estavam atrasadas em função da minha falta de concentração e da cobertura do acidente e eu ainda não havia feito metade das coisas que precisava fazer antes do dia encerrar. Mas tudo mudou naquele instante. Ouvindo a história dela, todos os meus “problemas” e preocupações pareceram ridículos. Sem exagero.

Nós conversamos durante quase uma hora e o que era para ser uma matéria simples, convidando para um seminário médico, tomou proporções emocionantes e virou uma das histórias da série “Vida de...”. Afinal, se o objetivo principal da série – que chegou à 119ª reportagem nesta semana – é incentivar o respeito, não havia forma melhor de fazê-lo. Para você entender, a Josiane é uma mãe daquelas “supercorujas”, que define o Pedro como “seu projeto de vida”. Um mês após o nascimento dele, ela descobriu, por conta, que ele sofria de uma doença rara, para a qual ainda não existe cura e com um prognóstico terrível: a neurofibromatose. Sabe aquelas pessoas com o corpo coberto por caroços? Essa é uma das principais consequências perceptíveis dessa condição médica. Mas o problema vai muito, mas muito além da questão estética: há muita dor e complicações envolvidas.

Naquela tarde, a Josiane me fez esquecer o que me afligia. Eu tentei me colocar no lugar dela, como mãe, no lugar do Pedro – que, embora tenha apenas 3 anos, já tem plena noção de que sofre de algo grave –, e de tantas pessoas que sofrem caladas. O que eu faria? Sinceramente, não sei se eu teria a força e a fé necessárias para superar isso. Mas a Josiane foi além e é justamente isso que a torna tão especial: ela não só busca todas as alternativas possíveis para ajudar o filho como tem sido um alento para outros pacientes, permitindo o compartilhamento de experiências e a vinda de especialistas para debater uma doença da qual ela mesmo nunca tinha ouvido falar antes do diagnóstico. Não importa se não existe cura ou se o prognóstico é avassalador: a Josiane quer criar um mundo melhor para que o Pedro e tantos outros portadores possam conviver com a neurofibromatose sem tanta dor na alma – sim, porque é isso que o preconceito e a falta de informação mais provocam.

Eu sei que problemas corriqueiros tiram nosso sono e que o fato de existir quem sofrem com situações mais graves não faz com que eles se resolvam. Mas penso que histórias assim podem nos ajudar a ver que nem tudo está perdido e que se mesmo quem enfrenta coisas terríveis consegue encontrar motivos para ter esperança, por que não podemos fazer o mesmo? Fica mais uma lição de vida: a de nunca perder a fé e a capacidade de buscar alternativas, por pior que o prognóstico seja. 

Conheça a história da Josiane no link: https://serranossa.com.br/noticia/geral/83338/por-menos-dor-na-alma-a-historia-da-mae-do-pedro


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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