Negócios de sucesso para relações falidas

Por: Felipe Sandrin | 04/12/2019 06:00:50

Eu tenho me deparado com muitos casos semelhantes nos últimos meses, pessoas com relacionamentos de longa data que se aproximam do fim. E não que isso seja novidade, afinal a maioria dos relacionamentos pende, sim, ao curto prazo dos meses. Porém, o que me causa mais estranheza são os fatores emocionais que se evidenciam junto a esses términos. Veja que não estou me referindo a adolescentes no auge da imaturidade, falo de adultos, pessoas com uma boa posição social e totalmente realizadas profissionalmente.

Pois a mesma mente que evolui brilhantemente em um aspecto atrofia em outro. A mesma pessoa que desenvolve com primazia seus compromissos de trabalho muitas vezes fracassa ao cruzar a porta de sua casa e se deparar com o parceiro. Hábeis para negociar milhares de reais e tão falhos para negociar reciprocidade e sentimento. Tão convictos para fechar um negócio, mas tão instáveis para definir o que é rotina e amor.

Relações de cinco, dez, quinze anos que simplesmente colapsam como uma empresa que, após anos de luta, assume a sua real figura de total falência. Pessoas brilhantes em relacionamentos horríveis. Vivendo por migalhas, aceitando tão pouco, doando-se por obrigação, vencidas por mera desistência.

Na levada dos anos, dos negócios, da luta pelo sucesso, não percebemos que nossas carreiras muitas vezes se desacoplam de nossas relações. Evoluímos para o trabalho, mas estagnamos para o valor do sentimento. Resultado: paramos no tempo emocionalmente. Nós nos tornamos homens e mulheres de trinta, quarenta, cinquenta anos, mas com idades mentais para relações que não passam dos vinte. Frágeis, indecisos e inconsequentes. Mentes instáveis que não conseguem processar em que momento aquela relação se perdeu até dar seu último suspiro.

Então, após o fim, o que poderia se tornar um livramento, torna-se mais um lamento. Lá fora um mundo estranho espera. Muitas conexões para pouca gente realmente conectada. Muitos contatos, para pouca fidelidade. Muito assunto, mas ninguém verdadeiramente interessante para se conversar. Pessoas e suas armaduras. Sorrisos ocultando escudos. Confiança para disfarçar fragilidades. Lá dentro um punhado de coisas quebradas, um amontoado de sentimentos não resolvidos, não separados, não reciclados.

Crescemos tanto em certas áreas de nossa vida, como foi que para tantas outras coisas deixamos acumular essa bagunça? Somos doutores infelizes; meritíssimos cansados; senhores do vazio. Somos mulheres bem-sucedidas, mas fracassadas para achar um mísero cara que honre a palavra homem. Somos homens que correm atrás da máquina, mas que à noite dormem no sofá sem de fato terem construído nada.

Não, não se trata da perfeição para com o todo. Trata-se do simples reflexo do equilíbrio. Pilares firmes formando homens e mulheres firmes. Amizades saudáveis, hábitos saudáveis, relações íntimas e saudáveis. Trata-se do orgulho no olhar da parceira, o mesmo orgulho com que se fecha um negócio e se ganha o salário do mês.

Destoamos vergonhosamente em nossas vidas e o sucesso sem felicidade começa a se mostrar nosso monumental fracasso.

Tão adultos para algumas coisas, mas tão infantis para outras. Esses somos nós, seres modernamente vencedores, mas ao final do dia mais uma vez derrotados. 
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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