Sem paciência

Por: Greice Scotton Locatelli | 18/04/2019 06:00:04

Estamos em pleno século 21, mas certas coisas parecem muito com o que deve ter sido a década de 1930. O ano é 2019 e se prega igualdade de direitos, aceitação da diversidade e autoaceitação, mas é cada situação que ainda se enfrenta que tem dias que é difícil não perder a paciência.

Eu me considero uma pessoa “vacinada” quando o assunto é preconceito. Já são mais de 30 anos de experiência no assunto. Na escola, primeiro eu era a “arrumadinha”, depois fui a “estudiosa”, depois a “quatro olhos”. Não interessava se era por algo positivo ou negativo, virávamos alvo, sem o menor pudor. Certa vez sofri preconceito porque era uma das poucas na turma cujos pais ainda eram casados (e não divorciados) – foi o bullying mais sem cabimento da lista. Hoje imagino a perplexidade da minha mãe me vendo “revoltada”. Ora, no alto dos meus 9 anos de vida, tudo o que eu via eram colegas de escola sendo beneficiados duplamente: duas festas, dois presentes, dois passeios e muita “flexibilidade” na disciplina. Hoje percebo o quanto a estabilidade do casamento dos meus pais fez toda a diferença. 

Na adolescência, meu apelido era “parede”, por ser uma das mais altas. Depois, quando comecei a engordar por problemas hormonais, passei a ser a “baleia”, “balofa” e toda sorte de sinônimos depreciativos para quem não veste o tamanho “padrão” – hoje, olhando as fotos da época, percebo que eu devia estar 2kg ou 3kg acima do meu peso, ou seja, nada que motivasse a tempestade emocional que aquelas ofensas causaram. 

Então veio o vestibular, fui para a faculdade, me formei, ao custo de muita dedicação construí uma carreira sólida. Engordei, emagrecei, engordei de novo, emagreci de novo, me casei, montei meu apartamento, comprei meu primeiro carro, depois troquei pelo segundo, pelo terceiro..., realizei alguns sonhos, amadureci. Sobrevivi! Aprendi que autoestima pode ser sinônimo de parar de sofrer em função da opinião dos outros e passei a pensar que vale mais a pena ser feliz do que ter razão. Depois de anos de sofrimento emocional, aprendi a identificar e me afastar do que faz mal e que dizer “não” de vez em quando não fará o mundo acabar. Principalmente: coloquei a mim mesma em primeiro lugar!

E um belo dia, consciente da minha própria história de vida, eu me deparei com alguém me criticando porque, na visão da pessoa, eu não tomo sol suficiente – “deveria, sua pele é muito branca” – ou me perguntando se estou doente porque consegui – a duríssimas penas e pela primeira vez na vida – emagrecer alguns quilos e me manter assim. Sério, gente? 

De repente, é como se estivesse de volta aos corredores da minha antiga escola, com dedos em riste e risadas altas demais. Só que agora é diferente: agora tem amor próprio envolvido. E isso faz com que as decisões se tornem muito mais fáceis, assim como conviver com gente desagradável. A gente aprende a relevar, a respirar fundo, a contar até mil, a ter pena daquela pessoa. E, quem consegue, aprende a não agir assim como os outros, porque já sentiu na pele o quanto dói.

É uma evolução pessoal, para a qual cabe a cada um encontrar o caminho, mas acaba dizendo respeito também à sociedade como um todo. Afinal, quem se ama e se respeita tende a se relacionar melhor com os outros e com o ambiente em que vive. Pessoas felizes não precisam “encher o saco” dos outros. E isso faz toda diferença! 

Ninguém sabe os dramas e traumas que o outro enfrentou, cada um tem suas provações e só quem viveu sabe quão árduo foi o caminho da superação. Por isso, antes de julgar porque alguém decide fazer ou não algo ou de simplesmente emitir uma opinião a respeito a aparência ou das atitudes, coloque-se no lugar dela. E se você for a bola da vez, lembre-se: isso também passa!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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