A era da reciprocidade intolerante

Por: Felipe Sandrin | 15/09/2016 00:00:00

No geral, a raça humana sempre foi intolerante, o que então talvez marque nossa época atual seja a migração dos intolerantes “diet” para a intolerância extrema. Se o extremismo cabia a poucos e geralmente pendia mais para um lado – mais especificamente a algumas religiões e grupos políticos –, hoje vemos acender a intolerância de resposta.
Quando um terrorista cometia seu crime, isso era de certa forma esperado, boa parte da população se levava a questionar tal ato, buscar as raízes que culminaram para a brutalidade do fato. Hoje, ao contrário de outras épocas, percebemos que o clamor público se volta não para um passado que justifique o ato horrendo, mas, sim, a um presente de como impedir um futuro ataque. Se tomou por claro que a política de impedir seguiria falhando, adotou-se a ideia da resposta – que extermine ou cause danos suficientes para esterilizar futuras ações.
Você pode ver a eleição para presidente dos Estados Unidos como mais uma: não é! Essa eleição traz as diretrizes de um novo mundo, mais distante, separatista, cauteloso a ponto de não se envergonhar de antecipados prejulgamentos vistos, até então, como preconceituosos. Trump não é o símbolo do preconceito, mas, sim, um reflexo do medo e um sinal claro de que o apelo pacificador tem nada menos que falhado por séculos em todo o mundo. Nossa ideia de que forças de paz podem resolver e apaziguar conflitos que ocorrem há milhares de anos é nada menos do que infantil: os 50 anos de completos fracassos demonstram isso.
Faz algumas décadas que o mundo é profundamente influenciado pelo que ocorre dentro do país mais poderoso do planeta, o cansaço do povo dos Estados Unidos para com os discursos que vão de encontro ao diálogo como solução dos problemas é evidente, quem adere a intolerância não o faz por escolha, mas, sim, por cansaço e um claro sentimento quanto à ineficácia do “dar a outra face”.
A saída do Reino Unido da União Europeia deixa ainda mais claro os novos rumos desse mundo intolerante. As ondas migratórias trazem à tona o maior problema que a Europa temia e sabia que um dia precisaria enfrentar. Na França e Alemanha, existem distritos dominados por religiões muçulmanas, bairros que se tornaram extremamente perigosos para as mulheres. Se você tem a ideia de que povos com culturas tão diferentes podem conviver pacificamente, acredite, você precisa de mais leitura e realidade. É fácil dizer “cada um na sua”, é fácil para você aceitar isso, mas vá a uma mesquita em qualquer lugar do mundo e escute sobre como é tratado, por exemplo, o homossexualismo. 
A intolerância começa a virar o jogo, o dito intolerante, visto até então com repúdio aos olhos da sociedade, começa a remover as amarras da vergonha. Reforçado pela violência de grupos radicais que ganham cada vez mais espaço para demonstrar seus atos horrendos, a arma dos comuns passa a ser o direito de proteger-se e, consequentemente, de revidar.
O mundo visto sem fronteiras ganhará ainda mais muros. Os lenços e máscaras, símbolos que unificavam as massas ao mesmo tempo em que protegiam os agressores, hoje caem com a velocidade que ascende a intolerância.
O sonho de unirmos o mundo e darmos a ele uma única face se realizou, todos hoje vestimos o semblante do medo. Desconfiamos de todos e o discurso de aceitar o outro se tornou folha seca: qualquer vento pode ser visto como tempestade e todos estão prontos para se abrigar em uma árvore segura – a qual certamente deixou de ser a árvore da tão sonhada e incoerente paz.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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