Exemplos, lições e carapaças

Por: Greice Scotton Locatelli | 05/03/2019 06:00:06

Ano que vem eu completo 10 anos de SERRANOSSA e me apavoro – positivamente – quando penso como o tempo passou rápido e o que eu aprendi aqui. Agora imagine alguém que completa 50 anos em uma mesma empresa. Tive a oportunidade de conhecer uma dessas pessoas na última semana, durante a pauta para mais uma reportagem da série “Vida de” (clique aqui para conferir).

O seu Zeca – ou José Merlo, no documento – é uma figura. Cabelos completamente brancos e uma serenidade que contrasta com a correria de um setor tão nevrálgico quanto a sala de tomografia. Uma enciclopédia humana e um exemplo de como é possível, sim, se adaptar às mais diversas situações, não importam as circunstâncias. No alto de seus 70 anos de idade, ele acumula 25 de experiência em Raio-X e outros 25 na Tomografia em uma carreira que começou ao acaso, fruto de uma mera curiosidade dele. “Eu fui além do que a função exigia”, ele me disse, quando questionei como começou na profissão. Aliás, no meio da entrevista ele tirou do bolso um papel no qual havia rascunhado como tudo começou. Pediu desculpas pela letra e disse que se planejar é um hábito que ajuda a ter sucesso não só na carreira, como na vida.

Imagine o tamanho das mudanças que ele vivenciou ao longo do último meio século: desde as exigências da profissão – mínimas no início – até a tecnologia empregada nos dias de hoje. Eu nasci no Tacchini e lembro de um hospital muito diferente durante a minha infância, imagine há 50 anos! Agora tente imaginar como deve ter sido difícil para ele não apenas acompanhar essa evolução, mas também aprender a lidar com as tecnologias que a modernidade trouxe, com o peso da responsabilidade de um diagnóstico que pode determinar se uma pessoa continuará viva ou não. Com muito esforço, ele tirou de letra. Mais do que isso, o fez com muita alegria e orgulho, outro segredo de uma carreira de tanto sucesso, conforme ele me confidenciou.

Como acontece muitas vezes no nosso dia a dia na comunicação, em determinado ponto da entrevista eu me identifiquei com uma fragilidade do meu entrevistado: o seu Zeca contou sobre um incidente traumático que vivenciou quando atendeu uma criança atropelada que pensou ser o filho dele. Naquele momento, a “jornalista” Greice deu lugar à “filha” Greice e eu me lembrei do dia em que recebi a informação de um acidente envolvendo vários veículos e, ao chegar ao local, me deparei com o meu pai entre as vítimas – ele estava machucado, mas ficou bem. Eu? Bem, eu não tenho nenhuma foto do acidente, não tive condições emocionais de fazer o meu trabalho após um susto daquele tamanho. Depois do incidente, é como se parte da minha carapaça emocional, como descreve o seu Zeca, tivesse se rompido. E, desde então, a cada acidente eu ligo para o meu pai, que, tal qual o meu entrevistado, segue trabalhando duro, apesar da idade. Ele já se acostumou com a preocupação, tanto que muitas vezes me atende já sabendo do que se trata. 

De história em história, a gente se identifica, se emociona e aprende. Eis uma das melhores dádivas da profissão que eu escolhi: um “mundo paralelo” que todos os dias nos ensina que vale a pena viver porque os bons são maioria e que nos permite disseminar essas lições de vida para sensibilizar outras pessoas.

Como é bom poder ouvir – e contar – histórias assim, de desafios e superações, de tantos Zecas que não desistem nunca e que abdicam das próprias vidas para ajudar desconhecidos em seus momentos mais dramáticos.

Naquela tarde, eu saí do Hospital Tacchini contente. Simples assim.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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