Ofensas aos mortos

Por: Greice Scotton Locatelli | 05/10/2019 06:00:19

Alguém é vítima de morte violenta e logo surgem opiniões de terceiros sobre a índole da vítima: “aposto que aprontou alguma”, “de graça não morreu”, “teve o que mereceu”. Na esmagadora maioria das vezes, quem opina sequer conhece a vítima, não faz ideia das circunstâncias em que a morte ocorreu e nem imagina o que levou aquele ser humano a seguir por aquele caminho – aliás, julga sem sequer ter certeza se a pessoa tinha antecedentes criminais. Infelizmente, ainda não inventaram um silenciador de manifestações inúteis, seja nas redes sociais ou na vida real, então o jeito é exercitar a paciência e respirar fundo para não se revoltar à toa.

Eu tenho plena convicção, trabalhando com comunicação e tendo experiência especialmente na área de segurança de que, sim, muitas das vítimas “não morreram de graça” ou “aprontaram alguma”. O ano passado, em Bento Gonçalves, foi um reflexo disso: as estatísticas mostram que dos 52 homicídios registrados, pouquíssimos casos não tiveram vítimas com uma vasta ficha criminal, ou seja, pessoas que, em determinado momento da vida decidiram – seja por que motivo for – escolher o lado da criminalidade e que mais tarde pagaram o preço por se envolverem com tráfico de drogas, roubos e assassinatos, entre tantos outros crimes. Mas também sei que igualmente raros são os casos em que o morto não tinha família. Traduzindo: por piores que tenham sido os erros que aquele ser humano cometeu, a morte dele trouxe sofrimento para os pais, os filhos, esposa/marido, sobrinhos e amigos. Da mesma forma, noticiamos muitos casos em que quem morreu não tinha passagens pela polícia e foi vítima de violência pura e simples, às vezes por estar no lugar errado e na hora errada. 

Não estou defendendo bandido, longe disso: penso que sempre há como optar pelo caminho do bem, mesmo que ele seja muito mais difícil dependendo da circunstância. Mas entendo que muitos perdem o rumo da própria vida. Quer um exemplo? Dia desses ouvi de um adolescente que no primeiro emprego ele ganhava R$ 800 por mês, trabalhando de segunda a sábado dois turnos. Foi convidado a ajudar no tráfico de drogas e ganhava o mesmo valor em uma semana, com a vantagem de não precisar qualificação nem as obrigações que um emprego formal exige (usar uniforme, bater ponto, cumprir horário). Imagino que muitos adolescentes ficariam tentados, embora esteja longe de ser algo positivo. 

O que quero dizer é que a morte sempre causa impacto emocional, independentemente da circunstância. Quem perde alguém querido para uma doença sofre tanto quanto quem perde alguém querido para a violência. E não cabe a nós emitirmos opinião sobre quem não conhecemos ou sobre uma situação que não nos diz respeito, sobretudo em casos que só serão esclarecidos (se possível) após um processo de investigação que pode ser longo. Sim, eu sei que eu sou uma sonhadora por achar que um simples texto publicado em um jornal vai conseguir mudar um comportamento que perpassa séculos. Mas, se uma pessoa apenas se conscientizar de que ofender quem morreu só para chamar atenção de nada adianta, terá sido uma vitória minha como jornalista.

Então, minha sugestão é que tenhamos mais respeito com quem ficou.  Respeito sempre foi e sempre será a chave de tudo. Não importa o tamanho ou a gravidade dos erros que alguém cometeu, nem se pagou com a própria vida por eles. Guardemos para nós opiniões que não servirão para nada, especialmente antes de saber da história completa. De novo, o silêncio é a melhor escolha.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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