Vestidos de noiva caros para casamentos curtos

Por: Felipe Sandrin | 22/09/2016 00:00:00

Após William e Fátima agora foi a vez de Angelina e Brad. É, os pilares públicos do casamento bem-sucedido seguem a desabar – leia-se como bem-sucedidos os casamentos que duram até que a morte os separe.

Em 2006 a média de tempo que um casamento durava era de 18 anos, atualmente estima-se que esse tempo tenha caído para 12 anos. Apesar disso, o número de casamentos cresceu entre 2013 e 2016: se esse crescimento justificará uma precipitação que acabará em separação, só daqui uma década saberemos, afinal teremos de esperar esses casais começarem a se separar.

O que, afinal, teria conduzido um grande número de matrimônios para o desfecho da separação? Bem, eis uma questão complexa com várias ramificações, mas diante minha perspectiva e tentando resumir: a meu ver a grande diferença acerca das relações e sua diminuída vida útil começa no século 17 com a ascensão da dita ‘liberdade’.

Há uma exatidão diante ao fato de que quanto mais liberdade temos menos seguros ficamos. É extremamente proporcional. Logo, quando nos cobrimos com a bandeira da liberdade assumimos subconscientemente o peso da liberdade do outro: eu sou livre para partir se não estiver feliz. Ótimo, parece correto, o mais honesto a se fazer, porém, se me cabe a liberdade de partir também cabe ao outro essa mesma liberdade. Logo, minha liberdade é minha própria prisão de insegurança quanto à permanência do outro.

A condição atual protege a ideia de que um casamento deve ser bom, mas o que é um casamento senão a privação dos impulsos e desejos? Um casamento não me parece ser bom pelas sensações de euforia que este produz, mas pelas limitações que tal união impõe ao casal, limitações essas que revelam outro lado do ser humano, uma redescoberta de si, de fraquezas e forças que apenas a estabilidade dividida pode revelar.

Quando casais vistos como símbolos do matrimônio abdicam da própria imagem pública, calculamos os limites que tais relações atingiram, podemos então pensar por quantos anos tais casamentos foram celebrados verdadeiramente como uma união benéfica. Entramos então em uma questão muito contundente se analisarmos o casamento em seu símbolo religioso: se sou triste em minha união devo permanecer ainda assim nesta por toda vida diante meu juramento sagrado?

Percebam o colapso tão revelador dessa questão. Expomo-nos à santificada igreja, ao símbolo máximo da união, expomos nossa crença, repetimos as palavras, fazemos o juramento, mas ainda assim separamos. Claramente então notamos que a própria crença e religião se curva diante às novas pretensões humanas, a essa avassaladora frase: você tem direito de ser feliz.

Os casamentos acontecem cada vez mais, pois acreditamos cada vez mais que a felicidade está fora de nós, em coisas ou pessoas. Separamos cada vez mais cedo, pois a felicidade se tornou a nova religião. Em vez da igreja vamos ao shopping, em vez das imagens contemplamos os manequins, em vez do padre, centenas de canais na TV.

São tempos de consumo, de consumir o outro, de esvaziá-lo e substituir por um modelo novo. São tempos onde filhos casam para satisfazerem o desejo dos pais e separam para satisfazerem os próprios.

Nunca vestidos de noiva custaram tanto e casamentos duraram tão pouco. E isso já explica muita coisa.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 732
18/10/2019 07:58:16
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA