A dupla tentativa e erro

Por: Greice Scotton Locatelli | 31/05/2019 06:00:27

Nós, seres humanos, somos naturalmente resistentes a mudanças – ou a maioria de nós, pelo menos. Tudo que é novo, diferente, assusta, traz receio. “Será que vai dar certo?” “Em time que está ganhando não se mexe”.

O jeito como reagimos a qualquer mudança que acontece em nossas vidas diz muito sobre nós, o jeito como fomos criados, nossas experiências de vida, a maneira como nos relacionamos com os outros e nossa capacidade de ter jogo de cintura e superar um impasse. Mas e quando a mudança envolve um grupo de pessoas, como uma cidade inteira? 

Em um município como Bento Gonçalves, que cresceu desordenadamente, mudanças acontecem o tempo todo – e são muito necessárias. Algumas são pensadas, estudadas planejadas, têm as consequências medidas antes de serem implantadas. Outras (a maioria) são a mais perfeita representação da dupla tentativa e erro – a gente tenta. Se não der, volta atrás. 

No trânsito – ah, sempre o trânsito! – essa dupla está quase sempre presente. Lendo algumas memórias da cidade recentemente, eu me deparei com um questionamento que tirava o sono da comunidade na década de 1980: o trânsito de veículos na rua José Mário Mônaco, em frente ao Hospital Tacchini. Já naquela época os moradores sugeriam mudanças nos sentidos de ruas porque o transtorno era grande. Imagine hoje, com uma cidade imensamente maior, em que existem 80 mil carros para 119 mil habitantes. O “método” tentativa e erro é posto em prática desde sempre, até hoje. Mesmo quando se tem uma análise técnica muitas mudanças acabam não implementadas por vários motivos, um deles é a resistência da comunidade.
Mas há outro viés nessa história que me sinto na obrigação de citar: a desconfiança das pessoas em relação a algo novo. Por exemplo: na última semana, a prefeitura deu detalhes sobre a implantação de sensores na Área Azul que permitirão a localização de vagas disponíveis através de um aplicativo de celular. Logo surgiram reclamações porque os motoristas seriam multados por usar celular e dirigir – como se GPS ou Waze não fossem utilizados o tempo todo, exatamente dessa forma. Alguns poucos elogiaram, outros já avisaram que haverá disputa de vagas entre dois ou mais motoristas e que isso pode evoluir para agressões físicas e houve ainda quem dissesse que é dinheiro jogado fora porque nunca tem vaga livre no centro.

Eu costumo ser bastante cética em relação a ações que prometem “milagres”, sobretudo quando envolve dinheiro público ou demandas históricas. Muitos anos de carreira no jornalismo fazem a pessoa ficar calejada quanto a expectativas – o então secretário de Segurança Pública, José Paulo Marinho, me lembrou na última semana que há muito tempo eu dizia que duvidava da obra do novo presídio e que hoje precisava “morder a minha língua” porque a obra está pronta. Verdade, admito – mas não sem citar que quase 20 anos se passaram entre a minha incredulidade e a obra sair do papel. Então, embora ainda duvidando que os sensores da Área Azul resolverão o fato de que há muito mais carros do que espaço no centro, fica o meu registro de reconhecimento ao menos pela tentativa de melhorar o sistema, tanto por parte do Poder Público quanto da empresa que detém a concessão do estacionamento rotativo. 

O sistema ainda não está em funcionamento. Se vai ajudar ou causar transtornos que ainda não sabemos que existem, só o tempo e o uso dirão. A gente sempre reclama que ninguém faz nada, que tal dar um voto de confiança quando algo é feito, como nesse caso e em tantos outros por aqui? 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 747
14/02/2020 08:04:07
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA