Você sabe usar o Tab?

Por: Greice Scotton Locatelli | 06/07/2019 06:00:52

Quando eu era adolescente, a informática estava começando a se tornar popular. A “moda” era fazer curso básico de informática, intitulado “Word/Excel/Internet”. Éramos jovens que recém haviam saído da infância típica dos anos 80, brincando ao ar livre e, em dias de chuva, assistindo filmes alugados em um videocassete. Pois bem, os tempos mudaram, mas não necessariamente para melhor.

Hoje vemos meninos e meninas que mal falam já “viciados” em celular e pais de cabelo em pé porque não conseguem manter os pequenos longe da tecnologia mesmo que por algumas horas. 

O que me preocupa é que, diferentemente da minha geração, as crianças de hoje têm uma ampla noção de informática desde cedo, mas isso nem sempre é voltado para algo além da diversão. A geração de jovens que está se formando nas universidades ilustra muito bem isso: são futuros profissionais que demonstram um total desconhecimento, por exemplo, quanto a uma das ferramentas mais utilizadas quando o assunto é informática: o Microsoft Word. Trata-se de um programa em que você pode escrever textos – é nele que estou redigindo esta coluna agora, caso você não saiba.

Hoje em dia, conhecer o mínimo do Word é necessário ainda na escola, para aqueles trabalhos de sala de aula, mas tem gente que chega às vésperas da formatura na universidade e ainda não domina o programa, bem simples de se lidar, diga-se de passagem. Coisas extremamente banais, como apertar a tecla Tab (para que a frase fique recuada como parágrafo) eles não sabem como fazer: dão espaços sucessivos até que a palavra fique onde eles querem que esteja. E não se trata de um caso isolado: parece que quanto mais acessível a tecnologia, menos interesse eles têm em saber ao menos um mínimo dela. E esse é só um exemplo.

Ora, como alguém que está se formando desconhece o básico do básico do básico? E como esse mesmo futuro profissional vai para o mercado de trabalho? Provavelmente como uma pessoa que conheci, aprovada em primeiro lugar em um processo seletivo dificílimo e que, no primeiro dia de trabalho, ao ser orientada a redigir um texto, pediu para que a empresa pagasse um curso de informática porque não sabia sequer ligar o computador, quem dirá trabalhar nele. De que adianta tanto conhecimento teórico se na prática a pessoa não corresponde? 

Tanto se fala em qualificação para o mercado de trabalho, cursos, especializações. Há tanta palestra motivacional por aí, tantos “conselhos” de como se tornar um profissional bem-sucedido. Mas, ao mesmo tempo, há uma leva de jovens entrando nas empresas sem o domínio mínimo necessário de algo que é utilizado em praticamente todas: o computador. E volto a dizer: não estou falando de nada que demande conhecimento extremo ou ampla aptidão – estou falando de programas básicos.

Imaginei que aquela exigência de conhecimento mínimo em informática, tão comum como requisito para se conseguir uma vaga lá pelos idos de 1990 e 2000, já não precisasse mais ser reforçada. Imaginei que seria o curso natural da humanidade que, com a popularização dos computadores e da internet, as pessoas se acostumassem à nova realidade e, pouco a pouco, fossem se aprimorando. Mas não: a realidade são jovens com o que há de mais moderno em termos de celulares, smartphones e iPhones, ligados o tempo todo, mas que, na hora de usar essa tecnologia para algo útil  (profissionalmente falando), apertam 14 vezes a tecla espaço para fazer um recuo de parágrafo.

Se é assim em um programa intuitivo e simples, com comandos básicos, imagine em um Excel, que exige domínio de fórmulas, ou em programas específicos como aqueles que usamos para diagramar o jornal (InDesign e Photoshop) ou um AutoCad, utilizado por engenheiros e arquitetos.

Precisamos urgentemente rever nossos conceitos e voltar ao básico. Usar tanta tecnologia para comunicação e diversão, sim, mas também entender que para ser um profissional no mínimo decente é preciso mais do que ter o melhor iPhone do mercado. E isso tem que começar na infância. Agora!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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