Compreensível, mas injusto

Por: Greice Scotton Locatelli | 14/06/2019 06:00:50

Se você perguntar para alunos de jornalismo no início da faculdade o que eles esperam da profissão, alguns provavelmente respondam que o objetivo é ajudar a mudar o mundo, preferencialmente para melhor. Eu já fui assim e, embora calejada por anos de notícias ruins, de tempos em tempos ainda me animo nesse propósito.

Foi o que aconteceu no último final de semana quando soubemos da informação de que a ERS-431, rodovia que liga Bento Gonçalves à região de Guaporé e São Valentim do Sul pelo distrito de Faria Lemos, recebeu placas de advertência sobre os perigos do trecho, especialmente para caminhões. Mas não se engane, a notícia é boa, mas não totalmente. A instalação, que deveria ter sido feita pelo governo do Estado, acabou sendo uma ação da própria comunidade, pelo que conseguimos descobrir.

As placas, bem diferentes das tradicionais instaladas anteriormente pelo Daer, fazem um alerta extra, com fotos chocantes dos graves acidentes que ocorreram no trecho, um verdadeiro apelo desesperado pela vida. Um levantamento recente divulgado pelo SERRANOSSA mostra que foram 7 mortes desde outubro de 2017, média de uma a cada três meses, sempre no mesmo trecho: entre os quilômetros 7 e 10 da rodovia, porção final do declive, e sempre envolvendo caminhões. 

Foram duas reportagens recentes: uma contou a história de um casal que mora há mais de 20 anos às margens da rodovia e que cansou de conviver com os perigos dela e decidiu se mudar. E não é para menos: só no quintal deles, foram duas mortes em menos de dois anos, sem contar os prejuízos e a destruição a cada acidente. E bem longe de ser exagero. Eu estive no local e, para que você tenha uma ideia do estrago, precisei jogar fora o calçado que eu usava naquele dia, tamanha quantidade de destroços e cacos de vidro (o caminhão estava carregado de garrafas de vinho quando tombou). O cenário só não é mais triste do que a notícia de que mais um pai de família, um filho, um marido se foi. Na época, também conversamos com outros moradores e com caminhoneiros que apontaram que a sinalização e a falta de áreas de escape são alguns dos problemas da ERS-431, agravados pelo fato de que muitos motoristas que não conhecem a região acabam seguindo por esse caminho por indicação do GPS. 

Outra reportagem mostrou a situação da sinalização que, embora existente, se prova ineficiente a cada notícia de morte por lá. Mas, para o Daer, está tudo bem. Em resposta aos questionamentos do SERRANOSSA, o departamento informou que a rodovia teve investimentos recentes em sinalização e que não há previsão de novas intervenções.
Ora, se o Estado não toma atitude, cabe à comunidade se mobilizar. Compreensível, mas injusto. Ninguém ganha desconto na montanha de impostos que paga todos os dias porque fez algo que seria obrigação do governo. É como se você morasse de aluguel e uma das paredes da casa estivesse caindo e o proprietário não quisesse ou não tivesse condições de investir no conserto: você faz, por conta própria, porque mora lá e não quer que ela caia em cima da sua família. Mas não vai receber desconto no aluguel, tampouco reembolso – aliás, sequer um “obrigado”.

É injusto, mas o descaso tem feito os exemplos serem cada vez mais frequentes: vejamos a situação das rodovias, verdadeiras peneiras para as quais não há previsão de investimento. Recentemente, três prefeituras da região se mobilizaram para fazer o que o governo não faz: a restauração do pavimento. Foi o caso de Farroupilha, que está consertando as crateras da ERS-122 e da RSC-453, e de Garibaldi e Carlos Barbosa, que estão solucionando os problemas da ERS-446, que liga a Serra à região metropolitana e estava um verdadeiro caos.

Então, resumindo: é preciso equilibrar essa equação. Se o governo é ineficiente e o que é dever dele acaba tendo que ser assumido pelas prefeituras ou pela própria comunidade, que se mude o sistema. Sim, eu sei, é uma utopia. Mas, como eu citei anteriormente, quando escolhi minha profissão eu tinha esperança de mudar o mundo para melhor. Que bom que alguns passos a gente está dando. Que ruim que a conta recai sempre sobre o povo. O recado é claro: estamos cansados de descaso, mas ainda não temos opção a não ser tomar atitude que não seria nossa responsabilidade, sem receber nada para isso.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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