As três garotas da janela

Por: Felipe Sandrin | 30/09/2016 00:00:00

No apartamento que fica em frente ao meu, moram três garotas, provavelmente universitárias. Não há como não se envolver com suas rotinas, por vezes percebo que elas também me observam. Bem, cada janela é como um canal de TV, vizinhos e suas programações.  Sempre gostei dessa sensação de não conhecer nada de alguém, mas vivenciar a rotina dessas pessoas.
Voltando para as três garotas: nossas rotinas não possibilitam encontros pessoais, no máximo nos observamos pelas molduras da janela. Melhor assim, nos cabe a imaginação e não há uma integração que comprometa nosso silencioso diálogo de olhares longínquos, como quando uma das garotas se pôs a chorar enquanto falava ao celular. Teria brigado com o namorado? Talvez alguma morte na família? Quem sabe apenas a TPM. Nunca saberei, mas sempre lembrarei daquela comum imagem que nos lembra algo que insistimos em esquecer: todos somos donos de sofrimentos.
Assim convivemos por quase dois anos, eu e as três vizinhas da frente, tímidos desconhecidos que fingiam não notar que, do outro prédio, alguém nos notava. Por algumas vezes, cogitei enviar um sinal que nos aproximasse, mas por quê? Há tanta proximidade em tudo hoje em dia e as pessoas parecem cada vez mais distantes. Basta descobrir o nome e conseguimos informação suficiente para julgar essa pessoa. O corno, a neurótica compulsiva, o hipócrita, o coxinha ou petista, a ciumenta e o gay – será que ele é? Em um mundo de rótulos, não conhecer alguém – mesmo que superficialmente – já nos causa uma estranheza.
Observo um homem velho entrar no apartamento das garotas. Uma delas corre e o abraça em uma verdade que não cabe a uma mera saudade. Suponho que seja seu pai. Ele e ela choram, definitivamente é seu pai. Ao longe os observo, para mim são pai, filha, saudade e reencontro.  Nada mais do que isso, puramente isso. Não vejo seus crimes nem castigos, não noto a mesquinhez nem as mentiras, não posso julgar seus erros, nada sei desses dois. São para mim apenas dois em uma saudade.
Percebo, então, que desconstruir também é uma forma de entender através dos sentimentos.  Se não há proximidade, mais fácil evitar julgamentos. Se alguém pudesse observar sua vida de longe o que essa pessoa enxergaria? Em que momento ela se emocionaria, qual cena definiria o melhor de você?
Após dois anos, me mudei. Ao final de 2013, deixei as três garotas. Recentemente, voltei ao condomínio buscando novamente um apartamento para morar. No antigo apartamento delas, um cartaz de “aluga-se”. Hoje estou morando no apartamento que foi delas e, em frente a ele fica o meu antigo lar. Nele um casal de velhinhos e um gato. Eu os observo, eles me observam. Mal sabem eles que eu já morei aí. Assim como mal sabem as garotas que hoje eu moro onde elas moravam. Engraçado, de alguma forma sinto que elas também moram em mim.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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