Que não seja tentativa e erro

Por: Greice Scotton Locatelli | 21/06/2019 06:00:34

Tenho visto com certa preocupação algumas flexibilizações em leis e normas. Embora concorde com parte delas, é preciso ter muita cautela quando se trata de vidas humanas e posso afirmar com a experiência e convicção de quem cobre notícias de trânsito há duas décadas e já viu barbaridades. Da mesma forma, é preciso ficar “com o pé atrás” já que as mudanças envolvem decisões políticas e esse é um assunto que tende a ser movido por paixões e, consequentemente, vazio de argumentos na maioria das vezes. 

A mais recente delas foi a resolução do Conselho Nacional de Trânsito que eliminou a necessidade do uso de simulador nas autoescolas. Bom para quem vai tirar a Carteira Nacional de Habilitação pela primeira vez e pagará cerca de 15% a menos no valor, já bem salgado. Ruim para as empresas, que investiram para se adequar à lei e agora ficarão com um equipamento sem uso, sem a certeza se a decisão é definitiva. 

O mais preocupante a meu ver, no entanto, é o reflexo disso para o trânsito, especialmente porque reduz em cinco horas a carga horária para formação de condutores na categoria B (carro) – no site do SERRANOSSA você confere todos os detalhes. 

Segundo o Detran, no Rio Grande do Sul o índice de reprovação na prova prática é de 60%, altíssimo. De que forma reduzir ainda mais as aulas pode ajudar, então? E como menos tempo de prática supervisionada formará motoristas melhores? Eu tenho minhas dúvidas, mas nos resta esperar para ver. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, garantiu que as mudanças ajudarão a desburocratizar etapas do processo de formação do condutor e que “As decisões foram fruto de muita reflexão e estão sendo tomadas com toda responsabilidade”. Argumento muito parecido, provavelmente, com o que foi usado quando se anunciou a obrigatoriedade do simulador e a decisão sobre o número mínimo de aulas práticas.

O mesmo vale para a retirada da multa para quem não transportar crianças de até sete anos e meio nas cadeirinhas adaptadas. De novo: bom para o bolso e indiferente para quem se preocupa com o bem-estar dos próprios filhos e conhece os perigos do trânsito. Ruim para aqueles que se acham imunes a tudo. Sei que não é o ideal e, tal qual o uso de cinto de segurança, cada um deveria tomar conta da própria vida sem ser punido por se arriscar. Mas, infelizmente, muitas vidas serão perdidas.

Morar no Brasil e pagar a montanha de impostos que pagamos todos os dias em absolutamente tudo que consumimos já é difícil com regras e normas claras, imagine com leis que mudam constantemente. Se há argumentos coerentes para as mudanças, concordo que sejam feitas, sobretudo quando é para desburocratizar a vida dos cidadãos, reduzir gastos ou facilitar. O importante é que essas decisões sejam técnicas e embasadas, não apenas fruto de uma opinião pessoal de quem tem o poder para tomá-las, seja quem for. Se virar moda seguir o princípio da tentativa e erro o que já era pesado acabará ficando insuportável.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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