Não há soluções locais

Por: Felipe Sandrin | 21/06/2019 06:00:37

Há solução para tudo e discursos para todos os gostos, alguns mais convincentes que outros, porém, bem verdade, nunca estivemos tão longe das ditas soluções.

Uma onda nacionalista invade diversos países, soluções locais para problemas globais. O assustador avanço tecnológico e o poder controlador das grandes empresas. Os milhões de refugiados. O efeito populacional sobre o planeta. Provavelmente essas sejam as três principais questões a nos afrontarem nos próximos anos: o que elas têm em comum? Necessitam de cooperação mundial, algo cada vez mais distante diante do nacionalismo que é incorporado por populações cada vez mais desesperadas e perdidas quanto a respostas para tais problemas.

Na medida em que o globalismo avança a saltos largos através das tecnologias, seu contraponto parece ganhar uma força igualmente avassaladora: não por impedir o avanço deste globalismo, mas, sim, em função da ânsia de uma defesa acabarmos iludidos pelas respostas locais, paliativas diante um assustador e irrefreável avanço.

A Europa mergulha em seu inferno astral. O conceito de liberdade e do abraço fraternal das diferenças parece esbarrar pela primeira vez no fenômeno da real diferença. Os franceses puxavam a carroça da aceitação, a ideia de abraçar as diferenças caía muito bem desde que essas diferenças fossem a de vizinhos como alemães e portugueses. Os alemães por sua vez – ainda embarcados em um sentimento de compensação pós-atrocidades de Segunda Guerra – pareciam aptos a aceitarem todos os reclusos e desesperados de outros países. Pareciam. A onda de diferenças que invadiu a Europa logo colocou em xeque todos os discursos que proclamavam as fronteiras abertas. Uma ruptura surgiu na própria Europa, que hoje assiste, impaciente, aos próximos capítulos do que parece uma tragédia anunciada.

Enquanto isso, nós, brasileiros, estamos mergulhados nos problemas locais. Anos de má administração, roubo e políticas maquiadas finalmente fizeram eclodir uma resposta de mudanças bruscas e quase imprevisíveis. Um povo cansado de ser punido passou a ensaiar gritos de mudança, mas seria essa mudança suficiente para os rumos globais?

Para essas três questões – a tecnologia, a onda migratória e as mudanças climáticas – não cabem soluções de bairro. De nada adianta a China tomar uma medida e os Estados Unidos tomarem outra. Se o capitalismo global surgia como salvação a algumas décadas, hoje nos questionamos sobre até onde o apoio global irá. A Rússia, em sua posição global, tem motivos mais do que suficientes para torcer por um aquecimento global. A China, em seu mercado imparável, não parece disposta a contenções quanto à sua evolução tecnológica. E a grande potência, os Estados Unidos, parece carecer cada vez mais de uma ideia global de soluções.

Esse é, sem dúvida, o período de maior desafio com o qual a raça humana há de se deparar. Não é uma grande guerra mundial, é muito mais do que isso. O consenso dessa vez não poderá ser decidido por armas, ele irá requerer uma cooperação quase voluntária. Sem o desespero da destruição e do risco eminente nuclear o homem poderá esticar sua estupidez ao máximo, agravando assim a chance de chegarmos a um ponto sem volta.

Aos que esperam dias mais fáceis, uma péssima notícia: as possibilidades globais estão nos individualizando. As perspectivas das soluções se dilatam e tornam-se cada vez mais longínquas. Nossa discordância não parece arrastar a novas guerras mundiais, mas sim a algo muito pior: um período de não ação que quase sempre conduz ao tarde demais.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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