Frescura ou realidade?

Por: Greice Scotton Locatelli | 28/06/2019 06:00:59

Em uma loja de produtos naturais e orgânicos, enquanto espero minha vez de ser atendida, ouço uma senhora que aparenta ter uns 60 anos se queixando com a funcionária do caixa. “Eu estou aposentada e cuido de um bebê. Ele é um querido, mas a mãe dele é neurótica, só quer frutas orgânicas, tem pavor de agrotóxico e não me deixa dar nada com açúcar. Minha mãe se preocupava com coisas de verdade, não com essas frescuras, e eu não morri”. A atendente, visivelmente constrangida, obviamente, nada falava. E a senhora seguia no discurso: “Agora é isso: toda segunda-feira eu tenho que vir aqui comprar frutas pro Enzo porque ela não tem mais com o que se preocupar e fica com essas bobagens de alimentação saudável, regulando tudo. Como se uma banana ou uma balinha fossem o fim do mundo”. 

Por mais que eu tente, é praticamente impossível separar a Greice “jornalista” da Greice “pessoa comum” nessas horas – tanto que a ideia de criar a série especial “Vida de...” surgiu justamente em uma situação assim, observando pessoas e seus comportamentos peculiares em público. Eu também já tive épocas de achar que orgânicos eram “frescura”, assim como produtos naturais e integrais. Já tive épocas de comer sem me preocupar com nada, assim como já me submeti a dietas radicalíssimas que só trouxeram prejuízos à saúde. Nessa busca por uma vida menos nociva acabei tomando consciência do quanto nos alimentamos mal. Talvez por isso hoje eu entenda a mãe do Enzo, embora não faça ideia de quem ela é. 

Tenho feito testes – sempre com supervisão de médico e nutricionista – e descoberto que certas coisas não fazem bem para o meu organismo, entre as quais o glúten, por exemplo, que piora muito a minha gastrite – só para fins de argumento, o glúten é um melhorador natural da farinha que incrementa consideravelmente o rendimento, portanto seu uso indiscriminado é sinônimo de lucro para grandes empresas do ramo e de consequências para a saúde de quem é sensível a ele.  

Mas, embora eu hoje tenha muito mais consciência alimentar, minha única restrição oficial é à lactose, à qual sou intolerante há 7 anos. Fora isso, eu não me tornei uma “neurótica”, como descreveu a tal senhora – até porque, convenhamos, a correria da rotina não permite certas extravagâncias: tem dias em que ter conseguido parar para comer o que quer que seja já é considerado lucro. Então, embora prefira os orgânicos, eu também como frutas e verduras cultivadas pelo método convencional, assim como alimentos que contenham glúten. O que eu tento é reduzir as quantidades para não piorar meus sintomas digestivos, só isso. 

Se eu fosse a mãe do Enzo, no entanto, agiria igual, afinal, as crianças de hoje já nascem em um mundo contaminado – se a nossa geração, criada comendo cenoura direto da terra, tem problemas de saúde decorrentes da alimentação, imagine as próximas, submetidas a tantos produtos industrializados.

A ganância vai dizimar a humanidade, pouco a pouco. E o pior de tudo é que nem saberemos ao certo o que nos matou: se foi o agrotóxico daquele tomate aparentemente inocente, a banana que comemos todo dia, a farinha usada para fazer a massa tão consumida aqui na região, aquela substância química de nome esquisito presente nos alimentos industrializados ou até a água que bebemos. O certo é que eu prefiro prevenir a remediar e quanto mais cedo a consciência alimentar começar, melhor será o futuro. 

Portanto: parabéns, mãe do Enzo! Quanto à cuidadora, ela tem sorte de ter sido criada “sem frescuras” e mesmo assim ter tido uma vida saudável e longa. Provavelmente o final teria sido outro se ela tivesse sido crescido nos dias de hoje, sem um mínimo de cuidado.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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