Quantas frustrações cabem em um dia?

Por: Felipe Sandrin | 28/06/2019 06:00:28

Em meio ao mar de possibilidades, as ondas são semelhantes. Um relacionamento afundando, um investimento de anos que começa a ruir e a sensação de que o tempo desperdiçado agora é apenas uma testemunha do que deu errado.

Bastaria você ouvir: e não estou me referindo a fingir ouvir, mas, sim, a ouvir, de verdade, sem ficar pensando em um comparativo próprio para aquela situação. Sim, você já deve ter notado isso. As pessoas parecem interessadas nas suas primeiras linhas, um tempo entre fingirem escutar e darem um exemplo próprio do que estão vivendo. Tudo é desespero.

As pessoas não escutam mais, elas acham que escutam, mas estão tão ocupadas em seus próprios dilemas, tão mergulhadas em seus próprios sufocos que buscam no desespero de outros um respiro, uma brecha para chegar a qualquer superfície e puxar um pouco de ar. E assim, inundados de problemas e sem perceber que não estamos sós, acabamos por nos sentir cada vez mais sós.

As pessoas me abordam nas redes sociais, nas ruas, nos cafés: “Ei, Felipe, você escreve tão bem sobre sentimentos, mas me conte o que você pensa, o que você está sentindo, pelo que você está passando”. E lá vamos nós, poucas linhas e elas começam a contar seus desesperos. E não que isso seja de hoje, que me magoe ou me jogue numa solidão da qual já não sou íntimo, o fato aqui é: se as pessoas não escutam mais, como elas podem respirar um pouco das próprias narrativas cheias de dramas e pressões?

Aliás, há quanto tempo você não faz isso? Escutar alguém sem dar uma opinião baseada na sua própria vida. Apenas escute, não precisa dar uma de Ana Maria Braga das receitas de vida e sacar do seu pocket mental a solução de tudo, apenas escute, sem buscar a solução, sem um comparativo milagroso ou a frase de efeito que desencadeia a catarse da mudança. Não, você, eu, ninguém tem a maldita receita, então apenas escute o que aquela alma aflita na sua frente está tentando falar, mesmo que ela sorria, que fale estar superando, mesmo que o batom e o contorno dos olhos tragam uma atraente vida para aquela face cansada: apenas escute.

Eu estou ficando velho... e impaciente. Minha impaciência não é mais um produto cerebral administrável, minha impaciência escorre até a boca e se aglomera em palavras: “Ei, ei, você quer desabafar ou você quer me ouvir? Se quer desabafar, não espere que eu lhe interrompa com soluções. Se quiser me ouvir, não me interrompa com seus pensamentos os quais apenas demonstram que você não está ouvindo nada do que digo”. Em certas épocas eu apenas pensava isso, hoje os pensamentos escapam e eu acabo falando essas coisas que podem soar ofensivas. Algumas pessoas me olham com um olhar aflito e admirado: “uau, que confiança”. Não é confiança, só estou de saco cheio.

Não vou mentir dizendo que a solução está na boca de outros, que se você ouvir magicamente sua capacidade cognitiva redesenhará os caminhos psíquicos os quais lhe libertarão do sofrimento. Não, escutar outros não trará respostas mágicas, porém, o sofrimento alheio, as aflições, todo esse mar de lama emocional demonstra que esse atoleiro de problemas não se separa em milhares de quilômetros, nós estamos próximos, todos presos a essa maldita areia movediça, tão próximos que, se pararmos de nos debater em desespero, talvez notemos que há alguém ali, ao lado, alguém a quem se agarrar, alguém a quem servir de apoio. Salvação? Não se trata disso quando tudo está afundando, mas de alguns minutos a mais, minutos para respirar fundo, oxigenar as ideias e mesmo dentro desse lodo todo quem sabe acharmos uma solução para não sufocarmos.

Fale menos, respire mais e naturalmente escute. Você vai perceber – talvez – que nessa arenosa bagunça chamada vida as respostas não estão nem em nós, nem em outros, as respostas simplesmente precisam de tempo, um tempo em que não estejamos programando respostas apenas para fazer de conta que sabemos escutar.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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