Adeus, bancos, adeus, bancários, obrigado aos sindicatos

Por: Felipe Sandrin | 10/06/2016 00:00:00

Faz mais de um mês que os bancários estão em greve, mas e daí? Quer dizer, na primeira semana até me importei, fui a uma agência da Caixa no bairro Botafogo e descobri que havia sido roubado. Sim, roubado, afinal quando alguém lhe impede de ter acesso a seu próprio dinheiro dizendo quanto você pode sacar dele isso não constitui outra coisa senão um crime. Enfim, aproveitei aquele momento para refletir, olhar para os poucos funcionários que estavam na agência: ‘É por causa do sindicato’, disseram-me alguns deles.
Cheguei em casa e fiz o que qualquer pessoa sensata já fez há tempo: comecei a operar minhas contas pela internet. Simples assim. Entendi então porque alguns amigos riam de mim quando eu dizia que ainda ia ao banco. Quer dizer, eu sempre soube que seria muito mais prático utilizar um celular do que um funcionário, mas até então estar ali, em uma fila de banco nada mais era do que um exercício de paciência e observação. Bem, mas isso acabou, agora, graças aos sindicatos e aos obedientes bancários percebi o quão inútil vão se tornar aqueles atendentes que apertam o botão e chamam a próxima senha em uma animosidade que contagia a todos.
Nesta semana mesmo parei para observar o sistema que está sendo implantado em um mercado de Florianópolis. Uma funcionária fica de frente a uma tela de computador, nessa tela quatro quadradinhos monitoram máquinas onde pessoas que fizeram suas compras registram rapidamente seus produtos e pagam sem nenhum contato humano. Quatro caixas monitorados por uma única funcionária, a previsão até ano que vem é que dezesseis caixas sejam operados por dois funcionários. Você então deve pensar: mas e o desemprego? Não, não é a modernidade que causa o desemprego, apenas a falta da tão exigida qualificação. Certamente muitas pessoas têm emprego graças aos novos sistemas que inevitavelmente seguirão a surgir.
O que vi ocorrer junto às greves dos bancários traz uma visão clara da nova época onde a concorrência não está operando em outra empresa, mas sim dentro da própria: não querem trabalhar? Vão parar tudo para reivindicar melhores salários? Ótimo, enquanto isso a curva do desvio se desenha. Mais de um milhão de clientes migraram para os aplicativos on-line, um dano irreparável aos próprios bancários e um ganho inestimável para as pessoas que não querem mais se sentir enganadas e roubadas.
Não há como impedir a praticidade, você pode no máximo enganá-la, só que o detalhe é que por aqui já se enganou muito, os dias da enrolação estão migrando para onde mesmo os atendentes que ouvem reclamações não sejam necessários.  Aliás, você sabia que o Brasil é um dos países com mais sindicatos no mundo? São mais de 15 mil. Ou seja, se sindicatos fossem bons o nosso ultrapassado país não seria o berço deles.
“Há males que vêm para o bem”, definitivamente essa frase descreve a greve dos bancos e os novos rumos que a tecnologia possibilitará. O tempo do ‘se tu não quer tem quem queira’ começa a se desenhar com muito mais força. A população, cansada de ser lesada, migra para as máquinas e sistemas interconectados. Menos contato humano, menos incomodação. Viva a modernidade e ao nosso direito de não ter que suportar o mau-humor do atendente infeliz.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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