Eu não posso vencer por você, mas posso estar com você

Por: Felipe Sandrin | 07/05/2019 06:00:19

Não, eu não entendo sua dor nem tenho total dimensão do que você esteja passando. A gente acha que entende o sofrimento dos outros porque afinal todos nós sofremos, mas não. Eu não posso saber sobre essa confusão que se passa dentro de você, não posso colocar minhas mãos por entre suas costelas e arrancar esse acúmulo de sensações que lhe atacam todas as manhãs quando acorda e todas as noites quando deita.

Acho, aliás, que foi ali onde fracassei, quando quis presunçosamente tirar isso de você, quando quis ser solução ao que eu pensava conhecer como sendo algo pelo que eu já havia passado. Hoje sei que eu devia simplesmente ter lhe ajudado a domar a fera, eu devia ter-lhe dito: ‘Ei, eu não posso imaginar pelo tanto que você esteja passando, mas eu posso lhe garantir que estou com você nessa, que estarei aqui, todos os dias até que isso se torne parte das coisas que lhe construíram alguém incrível’.

Hoje sei que aquela impotência de não poder lhe ajudar era tão menor quanto a sua impotência por não poder se doar mais, por não conseguir dizer-me o tanto mais que gostaria de poder fazer por nós. Hoje percebo que aquele seu olhar pesado e por tantas vezes triste não era apenas o peso do que você carregava sem conseguir desabafar, era também o peso do que queria e não podia me dar. E assim, quanto mais eu fazia, mais desse peso invisível se depositava sobre você e sobre suas expectativas já tão pesadas deste amanhã melhor que parecia tão distante.

Eu deveria simplesmente ter estado aí, ter-lhe feito perceber que você não precisava me explicar nada, que eu não precisava entender tudo pelo que você estava passando, pois a única coisa que realmente importava é que amanhã eu novamente estaria aí, para ouvir seu silêncio, para trazer um pouco de conforto ao seu sono e ser o alvo de seu desabafo se assim você quisesse e tivesse força para fazer.

Porque nunca foi sobre entrar em você e digladiar com seus medos e fantasmas, nunca foi sobre morrer em batalha na tentativa de descobrir a terra prometida do teu melhor eu. Não, você não precisava disso. A luta era sua e de algum jeito – do seu jeito – você podia sentir essa responsabilidade. Assim todas às vezes que eu tentei lhe entender eu acabei piorando tudo; todas às vezes que você tentou me explicar mais, sentiu-se apoderada por essa sensação de sufoco impotente.

Não foi, portanto, você que falhou comigo, nós apenas não entendíamos cada qual sua missão: a sua de suportar e vencer junto ao tempo. A minha de lhe dar apoio e ao fim aplaudir seu feito contemplando a magnífica pessoa que você se tornava.

É um dos grandes pecados dos jovens: a virtude de uma coragem estúpida que luta contra moinhos de vento como se fossem dragões. Ao fim só você poderia dizer o que eram, só você poderia contar-me a história de outras eras que se passaram no seu interior. Cabia a mim, ouvir, no presente, e rir com você no futuro.

A nossa culpa não foi o descaso, foi se importar demais e de tanto se importar travar essa batalha em um terreno onde batalha alguma se vence. 

Pois cada ser é único em sua dor e cabe a qualquer outro amado convidado não o mérito de dar-se aos monstros para devorarem em lugar, mas apenas mostrar-se presente para qualquer que fosse o resultado: porque o alimento desses monstros quase sempre é a solidão da alma que acometem. E a simples presença do ser amado é a espada de luz que a própria alma regozija e lá adiante agradece em recompensa.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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