Chega de problemas!

Por: Greice Scotton Locatelli | 07/12/2019 06:00:20

De tempos em tempos somos surpreendidos pela proporção que algumas notícias tomam ou pela falta de repercussão delas. Problemas graves, que afetam a maioria da população, geram bem menos interesse do que uma banalidade qualquer. E isso tem sido ainda mais evidente depois das redes sociais, o “passatempo” favorito de muita gente na hora de desopilar e esquecer os problemas do dia a dia.

Há algumas semanas, fiz a cobertura de uma reunião durante a qual foi anunciada a possibilidade de pedágio na maioria das rodovias da região – em quase todas, praticamente. Ou seja: se você quiser ir de Bento Gonçalves a Farroupilha, pagará pedágio; a São Valentim do Sul, idem. Assim como a São Vendelino. O argumento é que, como o Estado está falido há muito tempo, não tem como fazer uma manutenção mínima (leia-se tapar buracos ou recapear trechos intransitáveis), quem dirá obras estruturais, como duplicação de pistas, viadutos, túneis etc. A explicação é compreensível, mas ainda assim lamentável. Mas, como diria minha mãe, “se não há solução, solucionado está”.

Imaginei, como jornalista, que o assunto era de extrema relevância, afinal, isso impacta diretamente nos custos da maioria das empresas e também na rotina de boa parte das pessoas, mesmo aquelas que só usam as rodovias de vez em quando, para lazer, por exemplo. Eu me lembrei das reclamações históricas do pedágio em Farroupilha, do medo que muitos tinham a cada nova notícia de que a praça poderia ser reativada e de quanta polêmica acerca dos valores cobrados se levantou. Ledo engano o meu. A repercussão foi mínima, sem grandes polêmicas, sem alvoroço. 

O silêncio dos leitores me deixou muito intrigada: será que as pessoas entenderam o que eu escrevi? Talvez eu não tenha sido clara o suficiente. Será que se deram conta de que pode não haver apenas um, mas vários pedágios em diversas cidades da nossa microrregião? Ninguém vai questionar qual valor será cobrado? Nem dizer que a concessão pode resolver pelo menos os problemas recorrentes de falta de manutenção e que seria uma alternativa positiva? Ninguém vai aplicar a clássica reclamação de que já se paga um absurdo de impostos? Nenhum comentário sem noção sobre política e seus representantes? 

Algumas horas mais tarde, uma notícia que dizia que na semana seguinte as temperaturas iriam variar bastante – algo típico dessa época do ano – e adivinhem? Uma repercussão absurda, comentários, curtidas, compartilhamentos... Como explicar algo assim?

Eu tenho uma tese, embasada pura e simplesmente na minha observação do mundo, sem nenhuma comprovação ou suporte científico: a maioria de nós está farta de notícias densas e pesadas. Já temos tantos problemas para administrar no dia a dia que quando chegamos em casa não queremos saber se haverá pedágio, se um novo escândalo surgiu em alguma esfera do poder ou se existe algo que podemos fazer que vá além das nossas próprias necessidades. É tanta correria e frustração que ao chegar em casa tanto faz se os preços vão subir (“sempre sobem mesmo”), se algum político foi denunciado em um novo escândalo (“como se fosse novidade”) ou se será preciso pagar para transitar em uma rodovia minimamente decente (“a conta sempre sobra para o povo mesmo”). 

É desagradável ouvir um “mais do mesmo da tragédia”, seja ela qual for. Só que, infelizmente, em alguns casos é muito necessário.

Mas e como administrar isso enquanto profissional da comunicação? Ignorar todas as informações que permitem que a imprensa cumpra o seu papel social e viver de conteúdos “lights”, fofocas, memes, previsão do tempo? Não penso que seja um caminho viável. 

A imprensa tem um papel imprescindível de fiscalizar e denunciar situações que mexem com a vida de todos, por isso é preocupante quando notícias que impactam a sociedade são simplesmente ignoradas porque as pessoas estão cansadas (ou seria conformadas?). E esse é o primeiro passo do caos. 

Já escrevi antes, neste mesmo espaço, e repito: se já está ruim com alguns cidadãos conscientes de seus direitos e dos deveres governamentais cobrando, imagina se eles passarem a ler somente a coluna de fofocas de celebridades para “amenizar o dia”.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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