Onde morre a criança e nasce o adulto frustrado

Por: Felipe Sandrin | 10/09/2015 00:00:00

Buscava algo especial para esse Dia das Crianças, mas sei que essa é uma das datas mais difíceis de entender, afinal, surge em nós uma confusão de reais motivos sobre por que deveríamos festejá-la. Para que tem filhos, fica mais fácil: basta voltar a energia a eles para fazê-los notar a importância dessa fase. Mas, ainda assim, quanto desta comemoração não é simplesmente nossa e apenas mais um relembrar nostálgico? Não que seja ruim, mas o que, de fato, devemos passar adiante nesse dia? E, mais do que isso, o que podemos fazer pelas crianças?

Nessa busca por um texto que acrescentasse algo a vocês, revisitei minha infância – e não me refiro às lembranças. O fato é que o texto que quero passar a vocês não está na internet, ou seja, precisarei transcrevê-lo letra por letra aqui, assim como na minha infância. O que não era encontrado na biblioteca pública deveria ser inventado com muita perícia para que passasse pelo crivo dos professores. Bom, mas o que aqui retransmitirei não é inventado, está em um grande livro de Osho e, para mim, representa a grande sintonia sobre nossas funções para com as crianças. 

“As crianças não estão perdidas, e nós insistimos em ensiná-las. E todo o nosso ensinamento vai se tornar uma barreira para a vida, por que a vida precisa de uma mente ampla, aberta de todos os lados. E, para ensinar, você precisa de uma mente estreita – concentração, atenção, não percepção. Pois a percepção é uma mente fluindo simultaneamente em todas as direções. Você ouve o caminhão passar na rua. Você ouve os pássaros. Nada fica excluído e nada é desvio de atenção. Todas as coisas existem ao mesmo tempo. Eu vou falando; os pássaros não são perturbados. Os pássaros continuam cantando; porque eu deveria ser perturbado?... Mas o ensinamento depende de concentração. A concentração significa envenenar a criança. A concentração significa estreitar o ser da criança. Apenas uma pequena passagem ficará aberta e todo o resto será fechado. Só um buraquinho, ao qual você chama de concentração, permanecerá aberto, e esse vasto céu estará fechado... todas as portas e janelas. Sente-se perto da fechadura e fique olhando por ela – isso é concentração. Pense nisso: uma criança pequena sentada por seis horas, forçada a se sentar num banco duro, sem permissão de se mexer. Mas a energia se mexe, a energia é viva. Uma criança viva não pode se sentar em silêncio por muito tempo. Ela quer pular, correr e fazer milhões de coisas. Ela transborda de energia. E nós a obrigamos a sentar”.

Então, chegamos ao ponto chave do texto: ‘Se você quer ser mais eficiente, menos percepção é uma coisa boa, pois um mecanismo é mais eficiente que um homem. Um mecanismo simplesmente repete. Logo, todo esforço dispendido pela sociedade é para reduzir a criança a um mecanismo eficiente. E de repente, um dia, você percebe estar sentindo falta de tudo. Você viveu, no entanto, não pode dizer que viveu. Você amou, mas não consegue sentir que o amor aconteceu com você. Você não sentiu a fragrância de estar vivo”.

Sei que quando lemos uma fala tão profunda, ela nos parece utópica: “se criarmos nossos filhos assim, como eles vão sobreviver neste mundo?”, pensamos. Só por nos questionarmos desta forma, notamos o quanto o texto de Osho é preciso em suas colocações. Nós estamos criando as crianças para sobreviverem na guerra que irá colocar umas contra as outras.

Caminhar para a eficiência é tornar-se máquina e, claro, quanto mais máquinas somos, menos questionamos, menos hesitamos na hora de passar por cima de outras pessoas.

Neste Dia das Crianças, compre um presente para você mesmo. Dê-se algumas horas pensando sobre onde morre a criança e nasce o adulto frustrado. É um ótimo presente... para o mundo.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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