Das coisas que eu não entendo

Por: Greice Scotton Locatelli | 19/07/2019 06:00:32

“Indústria da multa”. “Máquina de arrecadar dinheiro”. A cada nova notícia sobre uma intensificação na fiscalização ou um equipamento que passa a ser utilizado para flagrar irregularidades no trânsito é uma chuva de reclamações e acusações. “É um absurdo”, “nós vamos pagar o pato de novo”, “tudo nas costas do trabalhador”. Primeiro: acalme-se. Segundo: reflita. Se existe a tal “indústria da multa” é porque muitos cometem infrações e acabam multados. Não é lógico?

Que me desculpe quem adora gritar coisas desse tipo aos quatro ventos, especialmente nas redes sociais, mas eu discordo: não quer cair na “indústria da multa”? É só seguir as leis – por mais que elas tragam despesas ou não sejam condizentes com a sua filosofia de vida, são indispensáveis para o convívio em sociedade. Simples assim! Quer mudar as leis? Comece procurando o vereador em quem você votou, se for uma norma municipal, ou no deputado federal ou senador que recebeu o seu voto. Já adianto que será preciso um argumento bastante convincente e muita paciência e determinação.

Como jornalista, eu acompanho o trânsito de Bento Gonçalves e região há quase duas décadas e posso garantir: não fossem medidas como operações de fiscalização e multas – ou ações “arrecadatórias”, se você preferir chamar assim –, os índices de vidas perdidas seriam (ainda mais) absurdos. Em todo esse tempo, as reclamações acaloradas acompanharam cada novo controlador de velocidade instalado nas rodovias, cada ação de fiscalização em semáforos feita pelos agentes de trânsito, cada blitz da Balada Segura e até mesmo anúncio de obras que visavam, justamente, melhorar a segurança de motoristas e pedestres – faço um parênteses aqui lembrando da rotatória do trevo da Telasul. Eu me lembro da quantidade absurda de queixas a respeito da obra na época. Quase dois anos depois, o número de acidentes (até então semanais, praticamente) caiu de forma bem drástica e o de mortes foi zerado. Claro, não é o ideal, poderia ser muito melhor, um viaduto teria sido mais eficaz. Mas é o que temos e, em um país como o nosso, o pouco já deve ser comemorado como muito.

Fico imaginando como seria se instalassem os tais “caetanos”, que flagram os motoristas que ultrapassam o semáforo no vermelho (como se só eles tivessem pressa) em Bento Gonçalves. Para mim, essa é uma das infrações mais graves e absurdas.

Eu tenho carro e sei muito bem que está a anos-luz de ser um “investimento”. Ter um veículo é sinônimo de gastos, invariavelmente. Combustível, manutenção, IPVA, estacionamento. Tudo custa – e custa caro. Concordo que o brasileiro acaba “pagando o pato” em muitas situações, que já pagamos impostos demais etc. Só que a tal “indústria da multa” castiga, em tese, quem descumpre alguma norma – e geralmente põe em risco a vida dos outros. 

Então, tentemos não generalizar. É necessária a fiscalização sim, porque infelizmente algumas pessoas só aprendem quando pesa no bolso. Se não for o seu caso, fique tranquilo. Provavelmente você não será “vítima” desse “sistema arrecadatório”. Se for, conforme-se: estacione somente onde for permitido, ande dentro do limite de velocidade, não dirija depois de beber, use o cinto de segurança, tenha respeito por outros motoristas e pedestres. Eu sei que não é fácil, que as 24 horas do dia nem sempre são suficientes e que você não tem dado conta de tudo. Eu também não, mas isso não justifica descumprir as leis e praticar desrespeito em tempo integral. 

Você decide: obedeça as regras e deixe a fiscalização punir quem não o faz ou faça o que bem entender e não reclame da punição. Só não dá para ficar nesse mimimi interminável.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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