Nas redes sociais pitbulls, mas na vida real, poodles

Por: Felipe Sandrin | 19/07/2019 06:00:43

Com certeza você já se deparou com eles. “On-line” são inquestionáveis, nos comentários atacam ferozes como soubessem os segredos de tudo, para todo assunto mais do que uma opinião: a certeza.

Duram tanto quanto espasmos, pipocam aqui e ali comentando o que querem, como querem... até que chega a intimação em casa, a Justiça chama e o corpo desfalece. De frente ao juiz não latem nem mordem, só baixam a cabeça e transparecem um ar de: “como fui acabar aqui, tanta gente estava lá e agora aqui estou tão só”. De fato: o órgão mais sensível do ser humano é o bolso.

Mas nem precisamos atacar a sensível conta bancária, por vezes basta cruzar na rua e lá estão novamente os pitbulls a se encolherem para revelar o poodle, inquieto, infeliz e consciente da sua ineficaz fragilidade, são como castelinhos que qualquer onda de realidade varre.

Porque ostentar força é bacana – em curto prazo e até revigorante, mas ainda assim danoso. Remédios para dormir e uma inquietude que não cessa. Acabam então por ser na internet o que são na vida, mas ao invés de assumirem a agonia se transvestem em coragem: o que não sabem é que a máscara da coragem é tão pesada quanto aquela que vestem pelas ruas na tentativa de superar mais um dia.

Será então que a velha tática de soltar os demônios realmente funciona? Porque quanto mais vejo estes a tentarem desabafar, mais criam as próprias armadilhas sobre serem o que nunca de fato conseguiram ser – tentaram ser sim, bem verdade, mas ainda assim nunca conseguiram.

A internet não é só o berço dos julgamentos, ela é a parede que se ergue fria aos julgadores. Se as hordas tem poder para com os atacados? Claro. Mas que efeito surtem sobre os que atacam na fúria de matarem algo neles próprios?

Somem os pitbulls e ao que se escuta falar estão em tratamento de depressão. Alguns já perderam, outros ainda tentam, mas quase sempre voltam piores, mais raivosos, espumando agora além de qualquer ódio um efeito de medicações ineficazes para os vírus que os acometem: tristeza com o que não se sabe o quê. Com o mundo, com o que são e o que sabem que não podem ser.

Os ataques de internet servem, sim, para algo: identifica-se nos acusadores o que estes próprios são. E toda majestade se ergue comentário após comentário, crítica após crítica, ataque após ataque... até que são reconhecidos, processados e agora – eles por sua vez – atacados. Desabam então, sem céu e sem chão. Fica o comentário de um próximo:  “Eu te disse pra largar um pouco dessa tal internet”.

E assim, entre uma batata frita e um refrigerante; entre um Rivotril e outra noite mal dormida; entre uma desistência e o acúmulo de fracassos, assim de golpe em golpe visitam a internet e lá fingem ser fortes, decididos e detentores de todo conhecimento. Latem alto para serem lembrados, mas quando lembram mesmo quem são aí a casa cai.

É o preço da vida on-line, você esquecer quem realmente é e quando lembrar afundar em si vendo a caravana passar como se seu latido já nem existisse.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 736
14/11/2019 06:00:47
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA