Retrocesso necessário

Por: Greice Scotton Locatelli | 26/07/2019 06:00:22

No dia 1º de junho de 2012, o SERRANOSSA publicou uma reportagem intitulada “Cerco às sacolas plásticas”, assinada pelo jornalista Eduardo Kopp. No texto, um depoimento meu sobre um teste que fiz indo às compras com uma espécie de carrinho de feira. A triste constatação, lendo esse relato sete anos depois, é que as coisas não mudaram tanto quanto deveriam.

Sim, em sete anos nossa consciência ecológica aumentou de forma significativa. Uma onda de preocupação acerca da sustentabilidade tem ganhado cada vez mais adeptos. O que não mudou, no entanto, foram os velhos hábitos. Por mais que a maior parte das grandes redes de supermercado ofereça opções bem em conta de sacolas retornáveis, o número de pessoas que as utilizam é bem pequeno.

Faça o teste: fique durante alguns minutos acompanhando o movimento dos caixas de um supermercado. Preste atenção na sincronia de movimentos dos atendentes na hora de embalar as compras e da destreza com que os consumidores as carregam. Eu sei porque, não raro, também faço isso. Apesar de ser adepta das sacolas recicláveis e de ter várias delas, nem sempre eu me lembro de levá-las na hora das compras. Nas vezes que eu levo, preciso ser rápida em avisar. Alguns segundos e minhas compras já estão ocupando várias embalagens plásticas.

As sacolas plásticas não são vilãs, mas é importante cautela no seu uso. Há alguns anos, uma campanha, ainda em voga em muitos mercados, defendia que sacola bem utilizada ajuda o meio ambiente. E é muito lógico isso, já que as pessoas reutilizam essas embalagens para outras finalidades além de simplesmente carregar as próprias compras, evitando a necessidade de consumir sacos específicos para a separação do lixo, para citar apenas um exemplo. Mas, como tudo na vida, é preciso moderação.

Muitos países em todo o mundo já tomaram atitudes práticas em relação às sacolas: a União Europeia, por exemplo, quer reduzir drasticamente em 80% o consumo das embalagens até o ano de 2025. Em números, isso significa que uma pessoa que hoje usa uma média de 198 sacolas por ano, poderá consumir no máximo 40. Já citei esse número anteriormente, neste mesmo espaço, mas vale repetir: em São Paulo, a média é de 700 sacolas por ano por habitante, 3,5 vezes mais do que na Europa e dez vezes mais do que na Alemanha, por exemplo.

Algumas práticas podem soar como retrocesso, mas são necessárias, afinal, nós abusamos do consumo de descartáveis como se o planeta não estivesse em vias de escassez de recursos naturais. E agora, depois de chegar no fundo do poço, temos que “retroceder” e proibir o uso de produtos que são bem práticos, mas cujo preço ambiental é alto demais a se pagar porque muita gente esquece que não existe o “jogar fora” – o planeta é um só. 

Cada vez mais, supermercados investem em alternativas para minimizar o impacto ambiental que o nosso comportamento como consumidores impôs. Mas ainda há muito a se evoluir – e a culpa por essa “lentidão” não é apenas das empresas. Mais um exemplo: muitos mercados não deixam o cliente pesar uma fruta sem que ela seja acondicionada em um saco plástico. Certo dia, eu perguntei para a atendente porque não poderia comprar uma berinjela e a etiqueta com o peso e o preço ser colada no próprio legume. A moça, muito prestativa, explicou que havia muitos casos de pessoas que faziam isso para que a etiqueta saísse facilmente. Dessa forma, compravam mais do mesmo produto, embalavam e usavam a etiqueta para pagar menos. E ainda tem gente que acha que corrupção só acontece na política! 

Eu sei que ser “ambientalmente correto” é chato, que é mais fácil jogar lixo no chão ou misturar tudo e colocar na rua para o caminhão recolher. Foram décadas desse comportamento e isso agora cobra seu preço. Chato ou não, é preciso. Como eu sempre digo, o segredo é começar por você mesmo. Que tal?


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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