O monopólio da informação

Por: Felipe Sandrin | 26/07/2019 06:00:52

Bastou surgir a sentença para o preço das ações do Facebook dispararem. Cinco bilhões de dólares, esse foi o valor que a rede social foi condenada a pagar no caso dos vazamentos de informações de milhões de usuários. Logicamente qualquer empresa que seja muito afetada judicialmente vê suas ações despencarem, então por que não foi esse o caso com o Facebook? Simples: porque cinco bilhões é uma quantia irrisória a quem parece hoje ser o homem mais poderoso do planeta.

Mas que poder é esse? Um poder que talvez pela primeira vez não possa ser medido. As redes integradas de Mark Zuckerberg detêm e produzem hoje mais de 90% da informação mundial. Em troca de bichinhos fofos, vídeos engraçados e informações variadas aceitamos entregar nosso bem mais precioso ao bilionário programador: nossas informações. Juntos, Facebook, Instagram e WhatsApp nos monitoram de forma tão sutil que quase chegamos a agradecer tais tecnologias e o mundo de possibilidades que parecem nos oferecer. Assim, de vídeo em vídeo, atualização e velocidade, praticidade e novas possibilidades, aceitamos e fornecemos o poder hoje incalculável deste constante monitoramento.

O celular mede com precisão onde estamos e para onde vamos. Em nossas fotos e vídeos fisionomias e marcas são facilmente identificadas. Dizemos sem perceber o que comemos e o que curtimos, mostramos para onde fomos nas férias e com que empresa aérea viajamos. Contamos até sobre nosso estado de espírito, o livro que estamos lendo e o remédio que talvez comecemos a usar.

Não há quem nos defenda, não há nem leis que ainda realmente nos protejam, pois a velocidade das mudanças é mais rápida do que qualquer nova lei. Se diante a revolução industrial o proletariado poderia deixar de trabalhar e ver a empresa parar, hoje a quem deveríamos recorrer se quiséssemos ser protegidos dos algoritmos? Não podemos sair às ruas protestar contra o Facebook, e afinal por onde marcaríamos tais protestos? Que meio de comunicação nos permitiria tal liberdade quando absolutamente todas as grandes redes pertencem ao mesmo homem?

Se o livre mercado deu face a um mundo de concorrência determinado por qualidade e escolha livre dos consumidores, a tecnologia monopolizou a informação criando bem provavelmente o sistema mais soberano já existente.

Mark Zuckerberg não pode ser comparado com ninguém que já existiu, porque de fato nunca existiu alguém tão poderoso. A informação sempre antecedeu o próprio dinheiro. E se hoje mais do que nunca constatamos que informação é poder, vemos pela primeira vez a concentração da informação.

As gaiolas de chumbo que outrora cativavam o homem a mesmo na dor buscar a liberdade hoje – e pela primeira vez – se mostram gaiolas reluzentes. Estamos atados ao brilho do sol, um sol de informações infindáveis e não filtradas, um sol de conhecimento superficial que nos enche de uma falsa sensação sobre todos os sabores do mundo.

Estamos acorrentados por livre e espontânea vontade. Acorrentados a algo que sabemos estar e do qual não queremos sair.

Entregamos nossas vidas, rotinas e gostos em troca de entretenimento barato. Como índios que trocam o paraíso por espelhos. Cegos em um mar de informação e pela primeira vez falsamente cientes de tal condição.

Nós declaradamente amamos a internet e – assim como na cegueira do amor – caminhamos próximos demais da loucura.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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