O especialista dos especialistas

Por: Felipe Sandrin | 13/10/2016 00:00:00

Engraçado como todos nós estamos nos tornando especialistas. Pessoas que nunca estudaram economia bradam com exatidão os passos que o governo deveria ou não tomar. Tais especialistas convergem, então, para o mesmo jogo de sempre: o jogo dos benefícios e seus beneficiários.

Falam em tocar na previdência e quem se aposentará nos próximos anos treme; falam em diminuir salário dos concursados e surgem milhares de textos sobre como o governo quer destruir o Brasil. Não darei minha opinião se estão ou não errados, mas me surpreende pessoas que viram o país se deteriorar na última década agora falarem como se quisessem salvar a pátria.

Tentei me aprofundar nos planos do novo governo e, sinceramente, achei muito complexo tudo que foi apresentado, hora parece salvação e no parágrafo seguinte uma dança de correntes criada em uma complexidade justamente para cravar ainda mais os dentes governamentais.

Acreditar sempre é banhar-se em uma inocência constrangedora, erguer a voz dizendo que Lula é inocente é uma atitude tão débil que merece nada menos do que a preocupação que se tem com loucos e suas imprevisibilidades. Mas há quem acredite. Acreditam em Lula, acreditam que o novo governo quer nos salvar, que medidas estão sendo tomadas somente para o bem ou o mal. Isso tudo porque deixou de importar a verdade e passou a sobrar ódio e oposições. O ódio transbordou, atacar se tornou o mantra daqueles que se julgam bons.

O maior perigo do homem está em quando ele para de ver seus crimes. Quando julgamos tudo somente a partir de nós, criamos um monstro cego e sedento por novas vigas que sustentem sua frágil e bondosa aparência. Mal ouvimos sobre algo e imediatamente calculamos como isso afetará nosso “órgão” mais sensível: o bolso.

Cuspimos sobre o interesse alheio, nos ocupamos assim de tal forma que não nos sobra espaço para ver que somos movidos pela mesma palavra: interesse. E se é de nossa natureza o querer, se está acima do consciente nossas necessidades, tudo o que pode nos tornar melhor não é sermos especialistas por uma semana em determinado assunto, mas, sim, percebermos justamente o que está a nos mover em cada opinião que emitimos.

Olhar para dentro é um caminho difícil e torturante, mas eis o único jeito de encontrarmos alguma lucidez em tempos nos quais a cegueira se tornou a tal ponto praticável que também agora se faz surda.

Lemos vinte linhas e achamos saber tudo, ouvimos a opinião de pessoas que nem sabemos por que admiramos e concluímos com exatidão, nos fechando para as demais opiniões. Você já parou para pensar, por exemplo, que alguém que você odeia pode estar certo? Não?! Pois lembre-se que existem três verdades: a sua, a minha e a verdade.

Em tempos difíceis, todos ficam muito próximos a serem vilões ou heróis, inclusive nós. E antes de ter certeza sobre ter escolhido o lado certo, pergunte a si quantas vezes você errou apenas nesta semana. E se todos se julgam heróis, onde afinal estão os vilões?


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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