Tic-tac

Por: Greice Scotton Locatelli | 08/02/2019 06:00:18

A cena há muito deixou de ser algo incomum: se antigamente qualquer barreira no trânsito da rua Assis Brasil logo virava motivo de alarde, hoje ver homens fortemente armados e viaturas bloqueando os arredores do Presídio Estadual de Bento Gonçalves já não é mais novidade. Rebelião, motim, incursão, operação de rotina, transferência de presos? Tanto faz. Parece que a comunidade já se acostumou. 

Foi assim na última semana, quando a Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) descobriu um plano de fuga e executou uma operação na penitenciária buscando neutralizar lideranças negativas. Ao todo, sete presos foram transferidos e diversos objetos apreendidos, entre os quais 37 celulares. 

Do lado de fora, foi possível perceber claramente a “naturalidade” com que operações assim vêm sendo tratadas pela comunidade. Apesar do bloqueio da rua para o trânsito de veículos, muita gente andou livremente, carregando sacolas de compras, caminhando lado a lado com agentes vestidos de preto e suas armas enormes. Alguns até pararam em frente à entrada principal, tentando, sem sucesso, ver o que se passava lá. Sem pudor, sem receio, como se nada fosse. Havia mães com bebês no colo acompanhando a movimentação, outras levando as crianças pela mão. Havia idosos caminhando despretensiosamente, pessoas andando apressadas como se estivessem atrasadas para algum compromisso de trabalho. Agentes do Grupo de Ações Especiais (Gaes) dividindo a calçada com pedestres que não pareciam entender a fragilidade daquele cenário e com bombeiros e atendentes do Samu a postos, caso algo desse errado e fosse necessário intervir. 

Só quem já esteve em uma rebelião sabe como o barulho de tiros pode ser sinônimo de algo na iminência de explodir e como, lá dentro, a tensão fica à flor da pele o tempo todo. Isso que se trata de um presídio pequeno, embora superlotado, e com problemas relativamente simples se comparado a grandes casas prisionais Brasil afora. Mesmo assim, não consigo me conformar com o fato de as pessoas acharem normal uma cena dessas.

A cada nova operação ou a cada novo flagrante – como o que aconteceu no último domingo, quando um homem tentou entregar 18 celulares a um dos apenados pelo pátio –, a pergunta ressurge: e o novo presídio? É um questionamento que eu também venho fazendo desde fevereiro e que ganhou mais força nos últimos dias. O governador Eduardo Leite anunciou que a inauguração aconteceria no final do mês de julho. Escrevo este texto no dia 29, para uma edição que circula no dia 2 de agosto. “Depende da agenda do governador”, me disse uma fonte. “Seguimos no aguardo, sem previsão”, informou outra. 

Como jornalista, eu também sigo no aguardo. Há duas décadas! Sim, desde que eu comecei na área, em 1999, venho fazendo reportagens no fatídico presídio que fica em pleno centro de Bento Gonçalves, esperando que elas ajudem a pressionar por uma solução. Um prédio construído para abrigar 96 detentos e que, no último final de semana, contabilizava 366. Um prédio improvisado, repleto de “gambiarras” que foram necessárias com o passar do tempo, após problemas estruturais ou rebeliões. Uma verdadeira bomba-relógio. E o novo? Bem, está pronto, segundo dizem. Já perdi as contas de quantas vezes eu escrevi ou disse isso: eu só acredito vendo. E não terei problema nenhum em “morder a minha língua”, contanto que isso seja resolvido. De uma vez por todas e de forma definitiva. Aguardemos os próximos capítulos, torcendo para que não demorem tal qual as séries badaladas do Netflix.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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