Até quando você vai aceitar o que te machuca?

Por: Felipe Sandrin | 08/02/2019 06:00:27

Mais um ano nesse emprego, mais um ano nesse relacionamento, só mais um ano, eu prometo. Melhor esperar passar as festas do final de ano, quem sabe depois das férias as coisas não melhorem, quem sabe o tempo não mude as coisas, quem sabe com o tempo essa pessoa não mude.

Quanto tempo faz desde que conversei comigo e me fiz essas promessas? Mais do que lembro. Há quanto tempo procrastino? Um dia de cada vez, sobrevivendo em vez de viver. Sentindo uma partezinha minha se perder, indo para tão longe que chego a esquecer quem um dia já fui e a força que um dia já tive.

Nem no espelho me reconheço mais, e quisera eu que fossem as linhas de minha face a se aprofundarem denunciando os dias que já me chegaram. Mas não, meu cabelo perdeu aquela cor, aquele brilho dos meus olhos já não consigo achar, há olheiras maiores do que eu pensei que teria nessa idade. E ainda assim minha cara cansada não chega a denunciar o cansaço que sinto lá dentro. Não, eu não cansei da vida, mas cansei de empurrar tudo lá para frente, as coisas que eu deveria ter arrumado e todos aqueles planos, aquelas coisas que eu fui deixando para o mês seguinte e hoje se tornaram pesados anos.

Fui complacente com quem não deveria, cresci mais em umas áreas do que outras: alguém me disse que isso era normal, mas hoje vejo o abismo em minha mente, a diferença que parece inalcançável entre minha vida social, meu trabalho e relacionamento.

Se alguém me dissesse que eu chegaria a essa idade assim eu duvidaria. Ouvi durante a vida que os anos trazem a experiência, mas ninguém me contou que a experiência faz tomar decisões o tempo todo, decisões que magoam outras pessoas, decisões que significam deixar anos de dedicação para trás: é isso? Seguir em frente é dizer “eu desisto” para algumas situações?

E fosse somente isso, dizer “chega”, mas não, o prejuízo desses anos mal vividos cobra um preço fixo, você se acostumou com aquela vida, aquelas pessoas, aqueles hábitos, e logo, mesmo saindo de tudo aquilo, novamente algo parecido lhe encontra. Outra face, outro cheiro e outro tom de voz, mas ainda assim problemas similares, vícios similares e lá vamos nós para as mesmas desculpas antes de ver tudo ruir.

O mundo está repleto de pessoas assim, que optam pela conveniência das pequenas doses de dor, que ao se depararem com o sofrimento da escolha que levaria a evolução optam por não passarem por esse sofrimento. 

Morrem assim todos os dias, cada dia um pouco e cada pouco mais. Até que aquela promessa de seguir em frente se perde na gaveta bagunçada a qual fomos depositando tudo o que não queríamos resolver naquele momento.

Vidas bagunçadas, relacionamentos bagunçados e escolhas que deixamos para um amanhã que nunca chegou. Esperamos o milagre e mentimos ser donos de uma mudança que ocorrerá do dia para a noite. Mas nunca ocorre e, mesmo quando tomamos as rédeas, tudo que chega a seguir vem para nos cobrar os anos que optamos por não crescer.

A vida é pesada para quem não mergulha na dor e perde a dádiva de aprender a subir até a superfície e tomar fôlego. A vida sufoca quando deixamos o que nos consome para o amanhã.

Se você está cansado de algo diga adeus agora. Vai doer, mas pela primeira vez em anos será a dor da libertação. Não aceite nem volte para o que machuca, não viva de migalhas. Você tem uma chance todos os dias, mas apenas uma vida. O amanhã você constrói hoje e mais um dia dentro do que faz sofrer é menos um dia que você poderia reaprender sobre o que é realmente viver.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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