Qualquer desilusão é mera coincidência

Por: Felipe Sandrin | 08/09/2019 06:00:45

As pessoas querem ter sorte, mas o que fazem para tê-la? A sorte de um bom relacionamento, por exemplo, não passa pelo crivo de algum santo que junte peças e favoreça afortunados na terra: relacionamentos – assim como quase tudo na vida – passa pela competência.

E se vivemos em tempos da autoajuda, não faltam livros que ensinam as pessoas a viverem. Então questiono: se as pessoas quisessem aprender a nadar, poderiam assim fazer apenas através de livros e catando fragmentos de opiniões alheias?

Coloque algo na sua cabeça: se você quiser aprender a nadar terá de entrar na água. Doeu ter de sair daquela relação que deu errado? Doeu precisar remoer sentimentos a fim de encontrar resquícios de seu orgulho agora tão distante? Bem-vindo à vida, bem-vindo ao mar, é hora de você aprender a dar as primeiras braçadas.

Em tempos de infinitas informações, passamos a ter conselheiros para tudo, diversos rostos para diversas opiniões sobre como deveríamos agir. Movimentos incessantes reverberam dentro de nós, ricocheteiam denunciando nossos azulejos e alertando-nos de nossa total fragilidade: o medo de agir nos trava e assim esperamos o movimento de sorte que nunca acontece.

"Dedo podre" dizem algumas: "Ah, eu tenho o dedo podre". Não, pode ter certeza que não é isso. Uma escolha errada é necessária, duas nos firmam em alguma certeza, três nos conclamam a mudança, e dali por diante somos nós que finalmente aprendemos a nadar ou apenas afundamos silenciosamente na desculpa da falta de sorte.
Coloquem isso na cabeça de vocês: Nós só atraímos o que somos. O mundo é nosso espelho e todo fracasso e glória são a contemplação do que estamos nos tornando.

“Mas veja bem, a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser.” A frase é cômica, mas subconscientemente é assim que somos programados a agir. Dê aos outros toda sua desgraça e livre-se do peso das grandes responsabilidades. Há séculos a maioria dos humanos faz isso.

Pés, mãos, boca e olhos. Essa é a ordem. Crave seus pés sobre sua realidade, sua real situação. Modifique tal realidade com suas mãos. Dê nome às coisas que atormentam e pronuncie a verdade. E, finalmente, tenha olhos que anteveem o mundo à sua volta.

E se nada pode se sustentar sem base, pergunte a si: qual a minha base? Que força emana daqueles que me cercam, que força têm meus amigos para me potencializarem, como essas pessoas me fazem melhor se não apenas com o uso da palavra amizade? O que tenho aprendido e quem tenho escutado? Há alguém que aposte tudo em mim, alguém que tenha certeza quanto a meu futuro expendido? E se não tenho isso – olhares que me contemplem com total admiração, onde foi que falhei: ou bem verdade nunca fiz nada suficiente para que pessoas apostassem em mim?

A maioria das pessoas não se deixarão ser invadidas por essas dúvidas, elas viverão o resto da vida como lampejos do que poderiam ter sido. E é por isso que para tanta aflição não há cura, pois não se trata sobre algo que você esteja fazendo errado, mas sim sobre o que em dado momento de sua vida você abriu mão de verdadeiramente ser.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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