Civilidade é tudo

Por: Greice Scotton Locatelli | 16/08/2019 06:00:41

Douglas e Maria passeiam com o seu cachorro em uma praça. Ele é enfermeiro, ela, administradora de empresas. Ambos trabalham duro, inclusive fazendo horas-extras, afinal, precisam pagar o aluguel e o custo de vida na região é alto. Como não têm filhos (Maria enfrenta uma doença que a impede de engravidar), dedicam atenção ao pet. Para eles, o Lucky é mais do que um cachorro: é um membro da família. 

Durante os passeios de Lucky, que acontecem religiosamente no início da manhã (único horário que ambos têm para se exercitar), ele anda devidamente identificado e com coleira. Como todo filhote, é ativo e alegre. Sempre que o animal faz suas necessidades, Douglas se apressa em pegar um saquinho específico e recolher. Afinal, civilidade é tudo. 

Em um desses passeios, Douglas, Maria e Lucky encontram uma moça, Alice, que passeia com sua filha, de 8 anos, e dois cães da família. Só que ela não se importa tanto assim com a civilidade: os pets dela andam soltos e fazem suas necessidades sem que a dona se incomode em recolher as fezes. Apesar de ela dizer que ambos são mansos, o Bóris e a Melinda não podem ver outro cão que logo ficam ouriçados. “Eles só querem cheirar o amigo”, argumenta, enquanto os pets latem e avançam para cima do filhote, que se apavora. 

O que era para ser um mero encontro entre tutores e seus cães em uma praça pública toma outro rumo: Douglas pede gentilmente que Alice segure seus animais de estimação para que eles não tornem a avançar sobre Lucky e sugere que ela use coleiras para evitar situações assim. Mas Alice é do tipo que não leva desaforo para casa e logo uma discussão começa: em questão de segundos, ela se descontrola e começa a agredi-lo verbalmente, chamando-o de vagabundo, dizendo que Lucky é um cachorro de madame e que acha ridículo um casal optar por ter um cachorro em vez de filhos. Diz que está na hora de ele ir procurar um emprego e que, se estiver incomodado, que se retire do local. Tudo isso na presença da filha, que não esboça reação.

Douglas respira fundo. “Civilidade é tudo” é seu mantra. Ele vira as costas e vai embora, amargando as acusações injustas e infundadas feitas por alguém que sequer sabe o nome dele, quem dirá sua história de vida ou o que ele enfrenta todos os dias. Maria, que odeia “barracos”, também se retira, deixando Alice aos berros, proferindo uma série de palavrões em sequência pelo simples fato de ter sido criticada, mesmo que de forma educada. 

Quantas vezes, no nosso dia a dia, histórias assim se repetem? Gente que não se preocupa com nada além de si mesma, que não poderia viver em sociedade tamanho desleixo para com os outros e com o meio ambiente e que às vezes ganha a razão “no grito”, mesmo que tudo que diga não reflita a verdade? Quantas Alices você conhece? E quantas crianças como a filha da Alice, que crescem vendo o pior lado do ser humano como algo corriqueiro? Ou, ainda, quantos Douglas e Marias, que de tempos em tempos tomam coragem para falar algo que julgam ser errado e, diante da resposta em forma de escândalo, ouvem quietos e acuados justamente por acreditar que civilidade é tudo e que certas coisas não merecem incentivo? Pergunto: quantas vezes você engoliu algo só para evitar uma briga ou quantas brigas poderia ter evitado se tivesse simplesmente virado as costas? 

É provável que Alice também estivesse enfrentando problemas ou que seu comportamento tenha sido resultado de uma vida de maus exemplos. Se ela também tivesse o mínimo de preocupação em ser civilizada, cenas desse tipo não se tornariam rotina e não seriam necessárias leis e punições tipo a que prevê multa para quem não recolhe as fezes do seu animal de estimação. Se Alice fosse um homem, talvez Douglas não tivesse se lembrado dos ensinamentos da mãe dele – de que meninas merecem respeito – e a coisa tivesse tomado uma proporção catastrófica. Tão catastrófica quanto pode ser o silêncio dos bons.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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