Sabe aquilo que você quer ser? Esquece, não tem futuro

Por: Felipe Sandrin | 16/08/2019 06:00:49

Você sabia que as dez maiores profissões em demanda hoje nem existiam dez anos atrás? Pois é, esse é o oceano de incerteza que encaramos. Mestrado e Doutorado aos 30, estabilidade aos 40. Família, filhos? Quem sabe?
E se aos 30 anos nossos avós já eram chefes de família, tinham profissões estáveis e aptidões seguras, o que nós temos hoje em dia? Seria possível escrever esta coluna toda em cima de questionamentos e inconclusões. Porque, de fato, todos nós ansiamos por alguma resposta: uma resposta para todo esse movimento que nos agride e desnorteia. Uma resposta que chegue na velocidade das respostas que o Google nos traz.

É dali que provêm toda essa angústia e esse pensamento negativo. Esse não saber – diante de um mundo que exige o tempo todo que sejamos enciclopédicos – nos joga de encontro ao primeiro sintoma da falência de respostas: o negativismo.  Quando não sabemos, nos apavoramos e, apavorados, o “armagedom” se torna o mais simples dos caminhos.

Assim nós entramos nessa nova era, tempos obscuros em que a vida começa aos 30, 40, 50. Tempos em que consolidar-se passa a ser sinônimo de ser um especialista.

O equilíbrio da vida inexiste, a ideia de ser o pai/mãe exemplo colide com o fato de que não sabemos bem de que exemplo estamos falando. Não há solo estável, tudo se move prestes a colidir. Anos em escolas e universidades, anos dedicando-se a uma profissão que já não depende somente de especialização. O chão de fábrica quase inexiste, diplomas na parede acumulam pó, ser feliz passou a ser prioridade, uma prioridade com pegadas não rastreáveis. Ouve-se falar dessa tal alegria, mas é tanta gente tentando ensiná-la que fica claro: ninguém de fato sabe onde está e, se alguém sabe, não há maneira de ensinar como se chega lá.

Eita mundinho difícil esse que criamos. Vivemos mais do que nunca, nosso corpo se estica saudável até onde nossos avós definhariam. Mas será que estávamos preparados para sermos saudáveis aos 50?

Um carro e um apartamento. Uma mulher, um filho, alguns divórcios, talvez, e, com certeza, uma passagem para a Europa. Nossa agenda está cheia de compromissos que nos tornam pertencentes a esse todo do que todos fazem. E no meio disso tudo, ainda lutamos e acreditamos ser diferentes.

Cabelo e barba bem aparados. Salão em dia. Soluções que levam menos do que algumas horas. Remédios para tudo e novas doses para as quais o corpo ainda não se acostumou. Abra uma revista, clique em um link, veja uma hora de TV e lá está uma nova doença que você precisa evitar, uma nova forma de retardar e melhorar sua velhice.

Entre filhos e Paris. Entre fazer vídeos para o Youtube ou montar uma van e vender cachorro-quente. Investir na bolsa, talvez. O quê? Você ainda não investe na bolsa? Seu dinheiro está na poupança? Parabéns: está perdendo dinheiro. Lembre-se: o dinheiro tem que trabalhar por você.

Aliás, já parou para pensar que o tempo está passando e a cada ano fica mais difícil para você ter filhos? Ah, você já tem filhos? E aí, tá criando alguém útil pelo menos ou vai criar mais um mimado que lá na frente vai falar somente dos direitos que tem e não correr atrás de nada? Talvez seu filho seja aquilo que você não conseguiu ser: Youtuber. Ah é, esqueci: daqui a dez anos nenhuma das 20 maiores profissões de hoje vai existir.

Caraca, dá para apertar o botão vermelho e começar de novo? Não dá, né?! Então o jeito é encarar. Vou é comprar pipoca e ficar assistindo o que esse mundo ainda está por se tornar. Como me disse um amigo que desistiu da Medicina para tentar ser piloto de drone: “o bagulho tá louco”.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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