Obra? Sou contra!

Por: Greice Scotton Locatelli | 23/08/2019 06:00:43

Você já ouviu aquela máxima de que “todo excesso esconde uma falta”? Faz muito sentido. Vamos aos exemplos práticos: sempre que alguém bebe demais, pode estar querendo “afogar” alguma mágoa ou frustração. O mesmo vale para comida, sexo, compras e outros comportamentos que trazem muito sofrimento. Mas e quem é viciado em reclamar? Sim, reclamar. O clima é campeão: frio, calor, chuva, estiagem, não importa. Nada agrada. Mas há algo que desperta ainda mais a ira de quem tem como hábito “ser contra” o tempo todo: mudanças.

Ah, as mudanças. Se contássemos todas as polêmicas a cada novo anúncio de mudança em Bento Gonçalves, renderia muito mais do que um livro. Poucas coisas “inflamam” tanto o discurso por essas bandas quanto essa palavra de três sílabas. E olha que, muitas vezes, a mudança vem para melhor – ou pelo menos essa é a intenção de quem a propôs. Se alguém anuncia uma obra, gera reclamação. Se uma obra não sai do papel, gera reclamação. Durante a execução, reclamação. Depois de finalizada, adivinhe, reclamação. É tanto mimimi que chega a irritar. 

Como jornalista eu acompanho, obviamente, anúncios de obras de todo tipo: de uma simples limpeza ou operação tapa-buracos até estruturas grandiosas, amplamente anunciadas como soluções permanentes para problemas que atingem Bento Gonçalves há muito tempo. Não foi diferente na última semana, quando a prefeitura reuniu autoridades e comunidades no salão do bairro São João para apresentar o projeto de um túnel na BR-470 que minimizaria os riscos de acidente naquele ponto da rodovia. Digo “minimizaria” porque o componente humano é decisivo para que uma tragédia aconteça. Ou seja, claro que ajuda, mas só a estrutura em si não é suficiente para garantir a segurança no trânsito se motoristas e pedestres não fizerem a sua respectiva parte.

Pois então... a obra foi anunciada e o edital para abertura da licitação, assinado. Poucos minutos se passaram até que as opiniões começassem a brotar nas redes sociais. A maioria, contra o projeto. Eu, como cidadã leiga em termos de engenharia, não faço ideia se algo é viável tecnicamente ou de qual seja o custo de uma obra desse tipo. Por isso, enquanto jornalista, prefiro ouvir e confiar na opinião das dezenas de profissionais que estão por trás desses projetos. Mas muita gente não pensa assim. “Com R$ 12 milhões eu construiria uma cidade inteira”, “um semáforo seria muito mais barato e eficaz”, “não tem necessidade de um túnel” e por aí vai. 

Embora esteja citando um caso específico, minha intenção não é defender a prefeitura – apenas para deixar claro.
Pergunto: quantas das pessoas que se mostram tradicionalmente contra qualquer mudança realmente passam por esse acesso ao bairro São João? Quem efetivamente já se arriscou atravessando as pistas a pé? São só duas perguntas, mas se fôssemos “filtrar” provavelmente a esmagadora maioria contrária à obra responderia que não aos dois questionamentos. 

Eu, por outro lado, sei a quantidade de acidentes que já cobri no trecho e compartilho opinião com várias pessoas que usaram as mesmas redes sociais para defender a necessidade de uma solução para o trecho. Aliás, o local foi palco até de um acidente simulado de grandes proporções, em 2012, tamanho perigo que oferecia – imagine hoje. Qualquer leigo percebe como o bairro São João cresceu desde então, especialmente pela exploração imobiliária da área.

Afirmo e reafirmo: essa obra é necessária e urgente, sim. Se a intenção dos que se mostraram contra 30 segundos depois de lerem o título da matéria é questionar o uso de dinheiro público ou a efetividade de uma solução apresentada, que o façam formalmente, com base em argumentos e de forma civilizada. Porque de achismos, mimimis e “especialistas de internet” o mundo está cheio.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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