Alguns heróis não usam capa, só a internet

Por: Felipe Sandrin | 23/08/2019 06:00:33

É mais fácil amar as crianças da África do que seus próprios parentes. É mais simples defender a Amazônia do que começar fazendo um trabalho de limpeza na sua comunidade. É sempre mais bonito, heroico e benevolente amar e lutar pelo que está distante. E, claro, é também muito mais fácil.

Por isso tantas ONGs, tanta gente falsamente preocupada com outros. Pessoas que não suportam familiares e vizinhos, mas que dizem ter o sonho de ajudar os “menos afortunados”. Conheço dezenas, passam o dia falando mal de outros, mas uma vez por mês se juntam a entidades de apoio a quem sofre de câncer para ajudar crianças desconhecidas. 
Não, não se trata sobre apagar algo ruim através de um gesto bom, apenas o simples ego, o simples desespero de provar-se aos outros.

Eis que surgem as redes sociais, a hiperconectividade. Coloque uma frase para que outros saibam sobre você apoiar uma tribo indígena. Poste um vídeo sobre um filhote de tamanduá sem mãe e questione: “Até quando permitiremos que isso aconteça?”. Seja defensor do tamanduá, defensor das tartarugas, um autoproclamado herói dos caramujos. Deixe o mundo saber que você ama os animais e a Palestina: mesmo sem ter ideia de onde fica a Palestina.

Engraçado como tantos desses que fingem se importar com algo tão distante não conseguem fazer o mínimo de diferença nem na sua comunidade. São totais desconhecidos na própria cidade. Carregam um sobrenome, algo que seus pais construíram, mas pelas próprias mãos nada fizeram. Esses são os novos revolucionários. Lutam contra o agrotóxico e fumam maconha sem nem questionar de onde veio. Falam sobre a desigualdade, mas nunca contribuíram para o maior programa social já criado: nunca geraram um mísero emprego.

Movidos por refrigerantes e fast food. Com discursos altruístas e uma fala convicta, opinam sobre economia, direitos humanos, leis internacionais. Sabem sobre tudo e têm a solução embasada em uma vivência prática de quem nunca saiu do próprio Estado, um lugarzinho desconhecido em um cantinho desse país chamado Brasil.

Não é de se estranhar, então, o problema com triglicerídeos, a dificuldade para dormir e os remédios que começam a frequentar o criado-mudo. “Anda deprimido, nervoso”, comentam os mais próximos. Ali está, a pessoinha que quer salvar tribos na Amazônia e lutar pelo direito das minorias. Mal tem forças para sair do sofá, às vezes adormece ali mesmo, assistindo à Globo. É essa pessoa que finge ter força para garantir o direito de outros, que está totalmente acima do peso e não consegue nem cumprir a promessa de ir a academia três míseras vezes na semana. 

Não é de se estranhar que as coisas estejam assim. Nossos autointitulados super-heróis pegam no sono no sofá. São esses que vão salvar a Amazônia, o país... o mundo? Sim, são eles! Amanhã mesmo vão tentar lacrar com um textão bombástico na internet, um textão que nem foi escrito por eles. Porque hoje nossos heróis não usam mais capa, eles preferem o “copiar e colar”. Ou quem sabe enviar um link pelo WhatsApp.

Esses são os heróis do hoje: lutam pelo mundo porque alguém disse que lutar pelo mundo é uma boa forma de sentir-se menos sozinho, de lutar contra a depressão.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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