Presentes de Natal?

Por: Felipe Sandrin | 20/10/2016 00:00:00

Ninguém foi à rua, cânticos não foram entoados, alunos não fecharam universidades nem tentaram agredir professores que queriam dar aula. Praticamente ninguém lamentou, nem mesmo no Facebook li um texto discordando do que havia acontecido. Cunha estava preso e o Brasil não discordou. Por quê? Ora, pois Cunha é um bandido, pistoleiro dos mais ardilosos, todos sabem disso.

Quando Lula for preso – e Lula será preso – vão existir vários a protestarem. O que muda então para tantos defenderem Lula? Podemos chamar de “Síndrome de Estocolmo?” Clássico caso no qual o sequestrado se apaixona pelo sequestrador. Lula é de fato uma figura apaixonante, o tio que todos gostam de ter, ele tem aquele ar de quem passa o doce por debaixo da mesa, que conta uma mentirinha para a mãe enquanto da aquela piscadela de olho para a criança. Lula é o titio bandido que lasca com um monte de gente, mas para a família tudo bem, Lula é legal, traz presentes. Era pobre, mas mesmo ficando milionário não perdeu a humildade, mesmo que voe apenas em jatos particulares, frequente a casa dos donos das maiores construtoras, tenha sítios e coberturas comprados com dinheiro sujo. Esqueça tudo isso, titio Lula é legal.

Cunha foi preso, ninguém lamentou. Lula será preso e diversos “coitados” vão se deixar levar. A escalada socialista é eficiente, ela convence de que o problema é sempre o outro. Muito atrativo, não? Esse discurso de que a culpa é sempre de outros, nunca nossa. Acreditem, eu já fui assim, culpar os outros é tão mais fácil, deixa tudo tão mais leve por um tempo. Se eu não tenho meu celular? A culpa é do rico opressor. Se meu pai não troca de carro? Culpa do empresário milionário. Se a gasolina fica cara? Malditos americanos! Lula quebrou os espelhos de muita gente, é fácil perceber isso quando você olha quem o defende. São pessoas mesquinhas, que geralmente possuem amigos apenas dentro de suas famílias, gente que adora discursar sobre como faz o bem e aponta culpados sem medo de errar.

Sabem por que é tão bom falar de Lula? Porque muita gente se dói, muita gente se mostra, muitas falsas máscaras caem. Quando falo isso de outros como o próprio Cunha de nada adianta, é como se todos convergíssemos a concordância e os canalhas pudessem se recolher as suas máscaras novamente. Se falo em Fernando Henrique ninguém liga, se grito “fora Temer” ninguém dá a mínima, agora, quando se fala em Lula muitas figuras surgem das sombras. Lula é o titio que ensinou aos sobrinhos sobre como algumas mentiras são legais, sobre como alguns crimes valem a pena ser cometidos. Lula é um divisor de águas para pessoas que querem se afastar dos “maus-caracteres”, Lula é o quebra disfarces, pois não há uma única mente honesta que defenda Lula – com exceção, claro, das mentes doentes.

Cunha vestiu laranja e foi trancafiado em uma jaulinha, Cunha legitima a prisão de um ex-presidente, afinal, qual seria a lógica de Lula estar na cadeia e um bandido tão pior que este, não?

Há um novo Brasil surgindo. Melhor? Não sei. Sempre que cai um rei, os ratos surgem das catacumbas para reivindicar o trono. Por isso a necessidade desse definhamento de Cunhas e Lulas: eles precisam ser o exemplo. Que sofram com o medo da lei assim como sofreram os tantos que agonizaram a falta daquele dinheirinho desviado do hospital, da segurança e da educação. Que sofram sem conseguir dormir pensando o que lhes aguarda na porta na manhã seguinte. Que sigam a envelhecer anos em meses, que a aparência definhe e os canalhas que os defenderam ao saírem às ruas sejam reconhecidos: “Lá vai aquele que defende bandido, mas que nunca visitou nenhum na cadeia”. Eita classe desunida!


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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